Suspeito de já ter integrado um esquema de pagamentos irregulares de comissões no exterior, como revelado pelo Bastidor, o presidente do conselho de Administração da Ferbasa, Sergio Dória, enfrentará um novo problema. Precisará esclarecer como comprou em 1999 uma fazenda que, até dois anos antes, pertencia à Ferbasa, companhia na qual era diretor comercial.
A operação envolveu até um colégio de freiras. Documentos obtidos pela reportagem apontam que as transações visavam a burlar as normas da companhia. Ao fim, o executivo adquiriu a posse do imóvel pagando bem menos do que a empresa desembolsara.
Trata-se da fazenda São Jorge, no município de Catú, região metropolitana da Salvador, que corresponde a 60 mil campos de futebol. Hoje um hectare na região – apenas a terra sem benfeitorias – está avaliado em aproximadamente 50 mil reais. Ou seja: somente as terras da fazenda valem cerca de 3 milhões de reais. O que não é o caso do imóvel em questão.
Em 1999, Sergio Dória pagou 42 mil reais pela fazenda – algo em torno de 208 mil reais em valores atuais. A mesma propriedade foi adquirida em 1984 pela Ferbasa por 163 milhões de cruzeiros, a moeda da época. Hoje, seriam 972 mil reais.
Anos depois, em 1997, a Ferbasa, representada pelos diretores Geraldo Lopes e Gilvan Durão, vendeu a fazenda por 60 mil reais, um valor equivalente a pouco mais de 284 mil reais nos dias de hoje. Geraldo Lopes atualmente é copresidente do Conselho de Administração da companhia.
Quem comprou? O colégio São José, que teve como representante a religiosa Maria Edna Marcelino de Souza, conhecida como Irmã Carmelina. Comparando o que recebeu em 1997 com o que tinha pagado em 1982, a Ferbasa perdeu cerca de 30% do valor entre a compra e a venda. A fazenda São Jorge fica a mais de 95 quilômetros do colégio, que é a distância entre Catú e Salvador.
Dois anos após comprar a propriedade, o colégio da Irmã Carmelina negociou a revenda da fazenda com Sérgio Doria. Ele pagou um valor que equivale a 21% a menos do que a Ferbasa gastou para adquirir a fazenda em 1984, de acordo com documentos obtidos pelo Bastidor. Esse cálculo conservador não considera o valor das benfeitorias conduzidas pela Ferbasa na fazenda.
A transação foi vista como uma manobra para driblar as normas e o estatuto da Fundação controladora, que proíbe a transferência de patrimônio da empresa diretamente para seus funcionários sem autorização do Conselho. Além disso, Dória ainda comprou por um valor menor e hoje a propriedade vale quase 15 vezes o que pagou.
Há vários agravantes na compra suspeita. A área é considerada estratégica para Ferbasa. A fazenda é localizada à margem de uma rodovia estadual e contava com uma ampla estrutura. Estava em pleno funcionamento e era utilizada como entreposto para o escoamento portuário da produção de minérios em várias cidades.
A Ferbasa conta com incentivos financeiros quando compra imóveis como a fazenda São Jorge. É levada em conta a compensação ambiental que precisa ser feita em razão do caráter da atividade de mineração. Ou seja, o comprador final, Dória, usufruiu desses benefícios ao pagar menos do que a propriedade valia.
O Bastidor procurou os envolvidos e questionou se a compra foi apenas uma coincidência, se havia alguma proximidade dos diretores com a irmã Carmelina do colégio São José e se ocorreu algum questionamento interno na empresa sobre a transação. No entanto, a Ferbasa, Sérgio Dória e Geraldo Lopes preferiram não se manifestar e não responderam os contatos.

