O primeiro ato do governo Lula já está em curso: inviabilizar a privatização da Eletrobras. Decorre de entendimento entre o petista e seus velhos aliados no MDB do Senado, grupo liderado por José Sarney e Renan Calheiros. 

O PT e o MDB do Senado são contra a operação de capitalização da empresa. Os interesses das duas partes no setor de energia são antigos e bem conhecidos – tanto que o MDB do Senado detinha, no governo Dilma, o controle do Ministério de Minas e Energia. A Transpetro, por exemplo, era de Renan, por meio do hoje esquecido delator Sérgio Machado. O ex-senador Eunício Oliveira, anfitrião de jantares entre o ex-presidente e seu grupo, era influente na área de álcool da BR Distribuidora.

Hoje, esse grupo detém força, embora não maioria, no Tribunal de Contas da União. Nesta semana, a corte deveria encerrar a análise do processo de privatização da Eletrobras. Mais uma vez, porém, espera-se um pedido de vista do ministro Vital do Rêgo. Ele pertence ao MDB do Senado. Se confirmado, o pedido de vista será o segundo de Vital no mesmo processo. Como o Bastidor revelou, o ministro liberou seu voto somente após o Planalto nomear um desembargador apoiado por ele.

Mesmo que Vital devolva o processo em poucas semanas, o governo talvez não tenha mais tempo para prosseguir com a operação neste ano. O prazo estabelecido já é exíguo para uma venda de ações complexa como a prevista pelo Ministério da Economia. 

Caso a privatização fracasse conforme o plano do dois grupos, Lula devolveria o comando do Ministério de Minas e Energia ao MDB do Senado. Se o petista não for eleito, o grupo conta com o pragmatismo de Bolsonaro para renegociar seus termos em 2023 – ou com o pragmatismo de quem quer que seja o presidente no próximo ano.