A saída repentina de Bento Albuquerque do governo pôs em risco a privatização da Eletrobras, segundo fontes à frente da operação. Discretamente, o ex-ministro de Minas e Energia havia assumido parte relevante das tratativas junto a ministros do Tribunal de Contas da União. Liderava as articulações do governo para assegurar que a corte viesse a destravar o processo de privatização.
A última etapa do julgamento do TCU sobre a operação está prevista para a próxima semana. Até ontem (quarta), a cúpula do Ministério de Minas e Energia e diretores da Eletrobras esperavam que a corte aprovasse a privatização, apesar da resistência dos ministros ligados a Lula e ao MDB.
A demissão de Bento espantou todos os envolvidos – ninguém esperava a exoneração dele. E colocou em dúvida o sucesso do governo no julgamento do TCU. As incertezas surgiram não apenas pela saída de um ministro que tinha bom diálogo político com o tribunal. Apareceram também pela natureza da mudança nas Minas e Energia.
A ascensão de Adolfo Sachsida, apadrinhado de Paulo Guedes, deu o sinal político de que a pasta de Minas e Energia está subordinada ao ministro da Economia. E, no decorrer do até agora tumultuado processo de privatização, Guedes foi belicoso publicamente com os ministros do TCU. De acordo com fontes no tribunal e no governo, o estilo agressivo do ministro custava caro a quem se dedicava a aprovar a operação Eletrobras. Cada declaração crítica de Guedes custava dez cafés de Jorge Oliveira, o principal homem do Planalto no TCU, com seus colegas, de modo a distensionar as relações entre as duas partes.
Com Guedes assenhorado do Ministério de Minas e Energia e do processo de privatização da Eletrobras, cessa a interlocução qualificada dos técnicos da área com os técnicos do TCU – uma interlocução necessária para que o julgamento chegue a bom termo. Esse diálogo era possível graças ao trabalho político de cima, que envolvia Bento. Sem uma diretriz política nítida, e na ausência de responsáveis pelo diálogo entre ministros, nada anda. O resultado se viu ontem, quando o plenário do TCU, liderado por Vital do Rêgo, opositor da privatização, aprovou uma fiscalização adicional na Eletrobras.
No Ministério de Minas e Energia, em que a operação Eletrobras é a prioridade número um, dois e três deste ano, prevalece a perplexidade. Ninguém se mexe ainda, como é natural após um abalo político desse tamanho. A maioria não sabe se fica no cargo.
Com a iminência do julgamento no TCU, essa paralisia, ainda que momentânea, pode custar a privatização da Eletrobras. Todos sabem que ministros com Vital do Rêgo e Bruno Dantas estão a um deslize do governo para conseguir mais tempo antes do julgamento definitivo do processo. E mais tempo, na visão do governo, significa impedir a privatização da Eletrobras.

