O presidente está repetindo a par e passo seu teatro quando o assunto é o preço dos combustíveis. Primeiro o presidente critica a Petrobras e tenta queimar o presidente da empresa. Chamou a empresa de “monstrengo” no fim do ano passado e está se repetindo agora, com o “Petrobras Futebol Clube“.

O próximo passo é criticar especificamente a política de preços e prometer mudá-la. Bolsonaro disse em 2021 que iria “rever a questão” e, há poucos dias, afirmou que “não pode a Petrobras trabalhar exclusivamente visando o lucro num mundo em crise”.

Em seguida viriam as acusações do presidente contra os governadores, por lucrarem com impostos sobre combustíveis, e o Congresso, pela inércia sobre o assunto. Depois, após uma promessa de greve pelos caminhoneiros, Bolsonaro passaria a cogitar zerar impostos federais.

Mas Bolsonaro pôde contar apenas com parte da estratégia dessa vez. Depois de nova ameaça de greve dos caminhoneiros, o presidente só prometeu rever PIS/Cofins sobre gasolina porque o Congresso aprovou (e ele sancionou) lei que reduziu a incidência de ICMS e zerou as contribuições federais sobre diesel e querosene.

O caminho lógico dessa estratégia para fingir estar realmente combatendo a alta crônica dos combustíveis no Brasil seria envolver autarquias no circuito. Em 2021 foram CVM e Cade. A Comissão de Valores Mobiliários abriu investigação sobre afirmação do presidente quanto à possível informação privilegiada. No Cade, o assunto chegou pelas distribuidoras de gás, que questionaram o aumento praticado pela empresa.

Neste ano, o órgão antitruste começou em janeiro a investigar a política de preços da Petrobras. Esses movimentos deixaram conselheiros do Cade em alerta, pois sabem que podem ser usados nesse espetáculo político, porque a atuação do órgão é limitada. “Isso sempre quando tem preço na discussão. A pandemia foi o exemplo mais recente, com equipamentos [médicos e de proteção individual]”, disse um integrante da entidade ao Bastidor.