O presidente Lula e o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, estão numa disputa de rara certeza de prejuízos. Não se trata da simples briga do “perde-perde”, que tem só dois derrotados. No caso atual, perdem Lula, Campos Neto, o Brasil e o Banco Central.
No caso mais recente e agudo, Lula e diversos petistas ameaçaram Campos Neto caso mantivesse os juros, a taxa Selic, nos 13,75% ao ano. O Copom – formado por Campos Neto e os diretores do Banco Central – não só manteve a taxa, como avisou que pode voltar a eleva-la se necessário, num comunicado em tom forte.
Os petistas querem não só gastar mais, como querem que o BC reduza os juros à força, como no governo Dilma, para incentivar um crescimento capaz de salvar o ano. O Copom segura os juros altos para domar uma inflação gerada nos dois últimos anos, exatamente porque o governo Bolsonaro gastou como Lula e sua turma querem fazer agora.
Nesta briga, não há ganhos e as perdas são certas. Lula perde por insistir em brigar num campo onde não pode ganhar. Campos Neto perde porque, ao agir assim, fará com que os petistas busquem instalar adversários na diretoria do BC e no Copom.
O fato de Lula e os seus ameaçarem tão diretamente o presidente do BC piora o ambiente econômico, tanto que o dólar subiu 1% e foi a R$ 5,29 e a bolsa caiu 2,2% nesta quinta-feira. O mercado financeiro sabe que Lula pode sabotar Campos Neto, mas tem armas limitadas para derrubá-lo. Ainda assim, piora um ambiente que já está ruim. Em resumo, perdem a economia brasileira e o BC.
Lula e os seus não ouviram o que já disse Henrique Meirelles, ex-ministro e ex-presidente do BC. Meirelles diz que não há modo mais eficiente de não reduzir os juros do que tentar dar ordens ou intimidar o Copom. Lula e sua turma fizeram isso esta semana e, para surpresa de ninguém, colheram o resultado esperado.
A autonomia do Banco Central é um avanço civilizatório, todos os países de relevantes têm uma autoridade monetária independente do governo de plantão. Mas o Brasil é resistente a avanços.

