Executivos e representantes de acionistas da Vale abordados por Alexandre Silveira estão entre perplexos e assustados com a disposição aparentemente inabalável do presidente Lula, em nome de quem o ministro afirma falar, para emplacar Guido Mantega no comando da empresa. Um deles descreve a pressão como “ameaça” – o único termo publicável entre os usados pelos envolvidos. O presidente da República parece disposto a fazer qualquer negócio para acomodar o ex-ministro da Fazenda na Presidência da segunda maior empresa de capital aberto do Brasil.

Como o Bastidor antecipou, Lula encarregou o ministro das Minas e Energia de convencer os acionistas da Vale a aceitar Guido como CEO da companhia. Silveira está cumprindo a ordem de Lula.

Entre os acionistas, estão Cosan, BlackRock e Mitsui – todos na casa de um dígito. A Previ é o único remanescente ligado ao governo da estrutura antiga da companhia, na qual também estavam Petros, Funcef e Bndes. As demais ações estão pulverizadas.

Um dos executivos assediados pelo governo diz que o emissário de Lula fala como se a Vale ainda estivesse sob a influência dos fundos e do Bndes. “Ou como nos anos 90”, afirma, em referência ao tempo em que a mineradora era estatal.

Um representante de um dos acionistas diz que o recado é claro: se Guido entrar, os acionistas terão um amigo no Planalto; caso contrário, terão um inimigo. Ninguém admite que vai ceder – mas ninguém quer Lula como inimigo. A Vale e os acionistas da Vale dependem da caneta do governo para uma miríade de assuntos. De licenças ambientais a renegociações de contratos, de acordos de dívidas a liberação de recursos – nada escapa ao poder decisório de Brasília.

Uma das fontes, que conhece o petista há bastante tempo, acredita que Lula não desistirá enquanto não colocar Guido na Vale – à frente da Vale mesmo, na Presidência, e não somente no Conselho. “Pode não dar certo agora, mas ele (Lula) quer mesmo o Guido”, diz.

Um dos executivos da Vale brinca, meio nervoso, que Mantega deveria mandar logo sua lista de assessores, para o compliance da companhia “trabalhar apenas uma vez”. “Vai que vem o Palocci junto”, diz. Por ora, é chiste.