Em novembro passado, a Comissão de Legislação Participativa da Câmara aprovou uma emenda orçamentária para destinar 88 milhões de reais para a inserção de jovens no mercado de trabalho. O pedido foi feito pelo Instituto Solidário Estudantil Empreendedor Individual (Iseei), presidido por Mafra Meris de Carvalho, alvo da Operação Bartomeu.
A investigação policial foi deflagrada um mês depois da aprovação na CLP e investiga outra entidade dirigida por Mafra, a Associação dos Jovens Aprendizes com Deficiência Visual (Ajacdevi). Segundo a Polícia Federal, há indícios de desvios de ao menos 400 mil reais em convênios firmados com o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. Os contratos somados chegam a 1,5 milhão de reais.
O projeto da emenda foi apresentado ao então presidente da comissão, deputado Waldenor Pereira, do PT da Bahia, em 3 de novembro do ano passado. Ele assumiu a relatoria da proposta. O dinheiro custearia a inserção de 35.200 jovens de 14 a 24 anos no mercado de trabalho, ao custo de 2,5 mil reais cada um.
Em 20 dias, a iniciativa foi aprovada com uma mudança: em vez de beneficiar o Iseei, a quantia seria repassada à Associação Nacional das Empresas Amigas do Jovem Aprendiz (Andeaja).
A Andeaja está registrada em uma casa na Rua Vereador João Claro, 44, em Aracaju. No papel, divide espaço com pelo menos outras 10 empresas. Se a emenda for adiante, será a casinha mais rica do país.
A Andeaja é dirigida no papel por Carla da Silva Santos. Segundo o Portal da Transparência, em 2021 e 2022, a entidade recebeu 1,5 milhão de reais do governo federal para a “Promoção da inclusão produtiva de pessoas em situação de pobreza”. Apesar do valor recebido, a entidade nem sequer tem um site oficial.
O deputado Waldenor Pereira disse que, após a aprovação na CLP, a proposta ainda precisará passar por outras comissões e pelos plenários da Câmara e do Senado. Ao ser questionado sobre a situação da entidade, Pereira agradeceu pelo aviso. “Muito obrigado pelo seu jornalismo investigativo”, disse.
A Andeaja respondeu ao Bastidor que pediu a ajuda da outra entidade, o Iseei, para apresentar o pedido da verba porque não era cadastrada para participar diretamente da CLP.
Uma assessora disse que o endereço de registro da ONG – a tal casa – é “virtual”, mas não explicou por que uma entidade com endereço virtual não tem ao menos um site oficial.
Mafra Meris não foi encontrada para comentar a ligação dela com as entidades e a respeito das investigações.

