Sob a sombra da CPI, trava-se uma disputa tensa e repleta de recados indiretos entre dois grupos que compartilhavam cargos de comando no Ministério da Saúde. A todos interessa o silêncio mútuo – silêncio ameaçado, em ambos os lados, pelo avançar do caso Covaxin.
Num típico dilema do prisioneiro, quem falar primeiro talvez perca menos. Não há incentivos suficientes para a cooperação entre os grupos opostos. E sobram riscos para quem ficar inerte. A guerra é iminente. A CPI pode quebrar qualquer chance de equilíbrio vantajoso aos dois lados.
Estamos falando do grupo de militares que estava na pasta e do grupo coordenado por Roberto Ferreira Dias, ex-diretor de Logística. O primeiro sempre teve o apoio do Planalto. O segundo conquistou o apoio do centrão.
É uma guerra de segundo escalão que, se explodir, sobe ao primeiro.
Eduardo Pazuello e Élcio Franco, os dois principais militares da Saúde até outro dia, não se davam com Roberto. Ao lado de outros militares de menor patente, tentavam controlar as negociações de compras de vacinas. São responsáveis diretos por ações que resultaram no bloqueio da Pfizer e na aceleração da Covaxin. Agiam sob ordens e orientações do Planalto.
Roberto liderava, dentro do Ministério, a burocracia lucrativa dos principais contratos da Saúde – inclusive os das vacinas. Com uma caneta de R$ 8 bilhões em meio a uma pandemia, tinha “muito mel para distribuir”, como diz um parceiro dele, onde mel nunca faltou.
Foi indicado pelo centrão, mas formou alianças estratégicas com militares do grupo oposto, como reforça o caso do pedido de propina de US$ 1 dólar por vacina a picaretas notórios, pelo qual acabou afastado.
Os dois lados têm munição, embora de calibres diferentes. Roberto pode demonstrar que as principais decisões sobre compra – ou rejeição – de vacinas contaram com a participação do Planalto. Os militares que hoje estão na Casa Civil podem acender Roberto e seus padrinhos no centrão, caso contem em público o que viram nos últimos meses à frente da pasta.
O depoimento de Roberto Ferreira Dias na CPI, previsto para os próximos dias, deve ser a próxima etapa decisiva nesse jogo de perde-perde. Se falar, chuta a crise para o Planalto. Se ficar quieto, mandará o sinal de armistício que o outro lado aguarda.

