Uma investigação do Ministério Público do Distrito Federal, em parceria com polícias civis de dois estados, está chegando perto de Ibaneis Rocha, o governador de Brasília afastado do cargo após os atos de 8 de janeiro.

Ibaneis não é apenas o chefe do executivo local de Brasília. Advogado rico, com experiência única na intersecção entre a política e a Justiça, Ibaneis comanda um grupo com ampla influência empresarial e jurídica. Ibaneis, em resumo, é um personagem mais relevante em Brasília do que muitos supõem. Lidera um grupo de advogados oriundos, como ele, do Piauí. Fizeram fortuna em Brasília. Acumularam poder na capital – seja no governo local, seja em diferentes instâncias da OAB, seja no Judiciário.

Hoje, quinta-feira, os promotores e delegados foram a campo em Brasília, no Piauí e em São Paulo para cumprir mandados de busca dessa investigação. Batizada de Operação Imprevidentes, apura corrupção e lavagem de dinheiro no Instituto de Previdência dos Servidores do Distrito Federal, o Iprev.

Os investigadores descobriram evidências fortes de um esquema tradicional: os diretores do Instituto de Previdência direcionavam investimentos para empresas que topassem pagar propina a eles. Os promotores obtiveram provas de que os empresários beneficiados com o esquema pagavam despesas pessoais dos diretores do Iprev. Há outras evidências. Os investigadores têm elementos que permitem suspeitar a existência de esquemas semelhantes em outras áreas do governo de Brasília.

Um desses diretores era o advogado Ney Ferraz Júnior. Ele foi alvo de buscas hoje. Era presidente do Iprev à época dos fatos, no ano passado – recentemente, tornou-se secretário de Planejamento do DF. Assim como outros personagens da trama, Ney Ferraz é amigo de Ibaneis dos tempos em que moravam no Piauí. Trata-se de um advogado de extrema confiança do governador afastado.

Ney Ferraz desfruta da intimidade de Ibaneis e ocupa posição de destaque no grupo. Sua mulher, a psicóloga Emanuela Ferraz, assumiu diferentes cargos públicos no primeiro governo de Ibaneis. A advogada Diná Ferraz, irmã de Ney, é casada com o também advogado Willian Guimarães (os dois estão na foto abaixo, do site local 180 Graus). Todos são do Piauí.

Guimarães é sócio de Ibaneis e ajuda a comandar o escritório do governador afastado. Como um dos próceres do grupo do Piauí, tem excelente trânsito na alta advocacia e no Judiciário. Foi presidente da OAB no Piauí. Ajudou o ministro do Supremo Kassio Nunes Marques, também natural do estado, a obter uma vaga de desembargador no Tribunal Regional Federal da Primeira Região – posição anterior de Kassio. Willian Guimarães era cotado para assumir a vaga aberta por Kassio no TRF1, mas abdicou em favor de um amigo.

As buscas nos endereços do advogado Ney Ferraz causaram um tremor no grupo do Piauí e entre quem manda na capital. Temem que a investigação avance e impeça o retorno de Ibaneis ao cargo. O comando do governo local é essencial para a manutenção do grupo – e para a coesão dele. Se os investigadores acelerarem enquanto Ibaneis estiver fora do governo, todos estarão mais expostos, sem a proteção política conferida pelo poder de um governador.

O Bastidor tentou contato com o secretário por meio de email institucional, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem. O Bastidor não conseguiu identificar se Ney Ferraz já constituiu defesa no caso. O espaço está aberto para que o investigado se manifeste.