O Brasil é um dos países onde policiais chineses têm realizado atividades ilegais para prender suspeitos de crimes na China. A informação consta em um relatório da Safeguard Defenders, ONG baseada na Espanha, que mapeia violações de direitos humanos em países asiáticos. Segundo o documento, o grupo persegue cidadãos chineses em vários países do mundo.
O relatório aponta que os escritórios da polícia chinesa no Brasil funcionam em São Paulo e no Rio de Janeiro. No entanto, a ONG diz que o mapeamento é impreciso e pode haver outros núcleos de atuação. No total foram descobertos 54 núcleos em 21 países, entre eles Holanda, Espanha e Reino Unido. Na América do Sul foram identificadas atividades na Argentina, Equador e no Chile.
A Safeguard Defenders afirma que os policiais chineses têm usado o combate a crimes cibernéticos para perseguir e prender dissidentes do regime em outros países. Para isso, controlam direitos de parentes e amigos dos suspeitos, incluindo o corte de água, luz e o acesso à saúde e educação. Desesperados, os parentes buscam contato com os suspeitos para convencê-los a voltar para casa e responder às acusações.
Há ainda outras formas de persuasão contra os parentes e amigos dos suspeitos, como a pichação de muros indicando a participação deles em esquemas criminosos e acusações de associação criminosa, mesmo sem base para tal.
Nos últimos anos, o governo chinês tem intensificado o combate a crimes virtuais, cujos índices crescem exponencialmente. Em geral, são fraudes financeiras, em que pessoas acabam caindo em golpes e repassando dinheiro aos criminosos.
Como muitas das atividades foram identificadas partindo de fora da China, o país está investindo na busca de suspeitos em outras nações. Em alguns casos, há acordos com autoridades locais para que os chineses investigados sejam deportados de forma mais rápida.
Não é o que acontece no Brasil e em países da Europa ou nos Estados Unidos. Segundo o relatório, a persuasão usando os parentes e amigos tem como objetivo fazer com que os suspeitos retornem à China por “vontade própria”. Dessa forma, o país elimina a burocracia de uma extradição, que pode levar anos em algumas situações.
Ainda de acordo com o documento, outro problema é que o suposto combate à criminalidade virtual tem sido usado apenas como bandeira oficial do governo chinês. Na prática, qualquer dissidente ou crítico do regime está sujeito à patrulha dos policiais que atuam fora do território da China.
Não há informações detalhadas a respeito de algum cidadão chinês vivendo em solo brasileiro ter retornado à China, com base nessa política de persuasão. No entanto, o governo chinês informou oficialmente que, em 2021, teria feito com que 210 mil suspeitos retornassem de forma “voluntária” ao país para responderem aos crimes dos quais foram acusados.
A manutenção de Xi Jiping no poder tende a aumentar a busca por dissidentes. O líder chinês recebeu em outubro a possibilidade de ficar mais cinco anos à frente do país, o que o tornará a pessoa com mais tempo na liderança, desde Mao Tse Tung.
O líder chinês possui um perfil bastante autoritário e pouco afeito a dissidências ou mudanças na cúpula do partido. Ao ser reconduzido ao cargo, apresentou um plano de trabalho que prevê a intensificação do combate à pressões externas e a ameaças contra o país.
Apesar da manutenção dos escritórios no Brasil, o país possui acordo de extradição com a China desde 2004 – mas que só foi ratificado em 2015. Contudo, o acordo não permite a extradição em algumas condições – entre elas, os casos de crimes políticos.
O Bastidor entrou em contato com os ministérios da Defesa, da Justiça e Segurança Pública e de Relações Exteriores para saber se as autoridades brasileiras tinham conhecimento das atividades chinesas em território nacional, mas as pastas não responderam.
O Supremo Tribunal Federal, responsável por analisar os pedidos de extradição, também foi consultado, mas não respondeu até o fechamento desta reportagem. O mesmo aconteceu com a Embaixada da China, em Brasília.
Leia a íntegra do relatório da Safeguard Defenders:

