Uma conversa da reportagem do Bastidor com o empresário Diego Cavalcante Gomes, detido pela Polícia Federal durante operação que investiga o comércio de sentenças no Superior Tribunal de Justiça, contradiz ao menos parte dos argumentos da defesa no pedido encaminhado ao Supremo Tribunal Federal para liberá-lo da prisão preventiva autorizada pelo ministro Cristiano Zanin, relator do caso na Corte.

O diálogo ocorreu no dia 13 de maio, das 19h23 às 19h40, e contou com mensagens no Whatsapp e uma ligação feita pelo mesmo aplicativo.

Naquele dia, pela manhã, Diego foi alvo de busca e apreensão em sua casa. Segundo a PF, o empresário tentou dar um fim em seu celular. Chegou a atirá-lo em uma casa vizinha. Relatório da PF, segundo reportagem do UOL, diz que Diego tentou destruir provas e acionou um personal trainer para ajudar a recuperar o aparelho arremessado pela janela.

O advogado do empresário, Marcelo Tigre, diz que, na verdade, o aparelho celular de Diego estava em uma loja de manutenção. Esse é o principal argumento da defesa no pedido feito a Zanin. O advogado apresentou um comprovante emitido pela Apple que atestaria a entrega do iPhone do empresário no dia 10 de maio a uma loja autorizada da marca em Brasília.

Na conversa com o Bastidor no dia 13 de maio, uma terça-feira, Diego primeiro negou que o número fosse dele e afirmou que não tinha relação com Andreson de Oliveira Gonçalves, tratado como principal personagem do esquema.

Depois, o empresário pediu uma ligação e confirmou que era ele mesmo do outro lado da linha. Disse que falaria com a reportagem caso não fosse mencionado. Acionou o seu advogado, Marcelo Tigre, com quem o Bastidor conversa desde então.

A versão de Diego e de sua defesa, de que o seu celular estava na manutenção, não cita um segundo aparelho que o empresário poderia estar usando. Horas após a busca e apreensão, o empresário não só estava com um telefone como respondeu mensagens e atendeu ligação.

A reportagem também recebeu um print com a última visualização de Diego no Whatsapp: foi naquela noite de 13 de maio, às 23h51.

Diego acabou preso após autorização de Zanin. O motivo foi obstrução de Justiça por tentar se livrar do celular que usou até a noite de 13 de maio, pelo menos. Ele chegou a ser considerado foragido no dia seguinte, 14 de maio, mas se entregou à PF depois.

O empresário, como mostrou o Bastidor, era visto como uma espécie de laranja ou operador de Andreson. Ele recebeu 5 milhões de reais da empresa Florais Transportes, que pertence ao lobista.

A atuação de Diego, contudo, ia além, segundo fontes que acompanham as investigações. Ele frequentava a sede do STJ. Sua parceria com Andreson envolvia o círculo de relações que ambos mantinham com assessores. Diego acionava Andreson para que facilitasse o contato com algum alvo no tribunal. O inverso também ocorria.

A reportagem procurou a defesa de Diego. Perguntou sobre a versão do celular na manutenção no mesmo dia em que ele foi alvo de busca e apreensão. Questionou se não houve algum engano nas datas, visto que no dia 13 o empresário estava com o celular e falou com o Bastidor.

Marcelo Tigre, o advogado, insistiu que o aparelho estava na autorizada, mas sem o chip. Seria uma exigência da própria loja. “O que me parece provável é que se tivermos apenas o chip e estivermos sem a posse do nosso aparelho [caso do cliente], é possível habilitá-lo num outro dispositivo que não seja necessariamente o mesmo que estava sendo buscado pela polícia”, acrescentou o advogado.

A reportagem insistiu na possibilidade de um segundo aparelho. “Não preciso admitir nada. Esse dado [se ele habilitou o chip em um novo dispositivo] é fácil de ser constatado para além da opinião ou especulação. Basta oficiar a operadora”.