O relatório sigiloso da Polícia Federal (PF) no inquérito da ‘Abin paralela’ mostra que o encontro entre o diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Luiz Fernando Corrêa, e Alexandre Ramagem, ex-diretor da Abin no governo Bolsonaro e atual deputado federal, em junho de 2023, na sede da agência, foi para tratar sobre uma operação secreta realizada em 2021, batizada de operação Trojan, em favelas do Rio de Janeiro.
À época, a Abin confirmou o encontro e afirmou que se tratou de uma reunião institucional em que Ramagem quis parabenizar Luiz Fernando por assumir o posto de diretor-geral.
Segundo fontes a par da investigação, a informação de que o assunto do encontro foi além do institucional veio do sucessor de Ramagem na direção da Abin, o ex-capitão de Exército e atual oficial da agência, Victor Carneiro, em depoimento à CGU (Controladoria-Geral da União).
Em depoimento gravado, Carneiro afirmou que recebeu a informação do teor do encontro diretamente de Ramagem, que estava “preocupado” com o tratamento que seria dado à operação secreta no decorrer das investigações. Segundo o oficial, Luiz Fernando disse a Ramagem que não precisaria se preocupar -sem dar maiores detalhes.
O diálogo também tratou sobre a atuação da ex-corregedora da Abin, Lidiane dos Santos, segundo Carneiro.
Em janeiro de 2024, a PF encontrou na casa de Ramagem dezenas de papéis timbrados com o termo “Plano de Operações 06/2021”. A investigação confirmou que os documentos foram gerados na Abin.
A operação secreta em favelas cariocas em 2021, como no complexo do Alemão e Maré, custou em torno de R$ 6 milhões e tinha o objetivo de monitorar o crime organizado. Foi comandada por Felipe Arlotta, policial federal cedido à Abin, e por Victor Carneiro, que chefiava a superintendência da agência no Rio -ambos indiciados no inquérito.
A PF não descreveu nenhum indício de crime por nenhum dos envolvidos na deflagração da operação secreta, mas a incluiu no relatório como um desvio de função institucional da Abin na gestão de Alexandre Ramagem. A CGU fará uma auditoria sobre os valores gastos na operação.
Em seu perfil no X, Ramagem disse que a investigação da PF sobre a Abin “descambou” e que estão desestruturando a inteligência de estado.
O Bastidor procurou a Abin e Luiz Fernando, que não quiseram se manifestar. Já Victor Carneiro, Felipe Arlotta e Alexandre Ramagem ainda não retornaram o contato.

