Um dos maiores criminalistas do país atendeu anteontem dois ex-executivos das Americanas. Um deles foi alvo na semana passada da operação Disclosure, da Polícia Federal, sobre as fraudes na companhia. O outro teme estar na fila.
O advogado – que, por sinal, nunca teve problemas em recorrer a colaborações premiadas quando elas eram vantajosas, nos tempos de Lava Jato – acalmou ambos. Após analisar as principais peças dos autos em parceria com outro tubarão do Direito Penal, vislumbrou fragilidades e até possíveis nulidades na investigação.
Na avaliação do criminalista e de seu parceiro, ambos especialistas em matar inquéritos de crimes de colarinho branco, a investigação está alicerçada num uso “ilegal e abusivo” de duas delações e em conversas de WhatsApp “distorcidas”.
Eles também afirmaram aos clientes, e confirmaram reservadamente ao Bastidor, que a relativa complexidade técnica das fraudes e a tradição brasileira de ignorar crimes corporativos jogam contra o inquérito. A força econômica do trio Jorge Paulo Lemann, Carlos Alberto Sicupira e Marcel Telles não precisou ser mencionada.
Um dos ex-executivos chegou ao escritório do criminalista disposto até a tentar uma delação. Saiu de lá convencido de que gastará uma boa grana em multas à CVM e, claro, com seus advogados. (Nesse tipo de caso, os honorários, só com os criminalistas, provavelmente ultrapassarão eventuais multas à CVM.) Após o impacto inicial da operação, eles acreditam que prevalecerão nos tribunais superiores.
“Se nem executivo da Samarco e da Braskem caiu, imagine quem é suspeito de ignorar normas contábeis”, diz um dos advogados, com o discurso aparentemente já adaptado aos clientes.
A confiança parece beirar a arrogância, mas só para quem desconhece os resultados dessa turma. “Só bagrinho e gente apressada vai se dar mal”, diz o criminalista. “Quem tiver sangue frio e discrição resolverá tudo.”
Bagrinho, para ele, é qualquer um abaixo de CEO.

