É inegável o ganho que o Partido Liberal, de Valdemar Costa Neto, teve com a chegada de Jair Bolsonaro. Tem as maiores bancadas na Câmara e no Senado, teve quase 900 milhões de reais para gastar na eleição e fez mais de 500 prefeitos no mês passado. Mas o preço a pagar é a alto. O PL aparece no relatório final da investigação da Polícia Federal como uma espécie de puxadinho da tentativa de golpe de estado de Bolsonaro e dos seus.
O PL é citado como um porto seguro dos golpistas. Em seu comitê de campanha, numa casa no Lago Sul, ocorreram reuniões e foram encontrados documentos sobre o golpe.
“A organização criminosa, dentro da divisão de tarefas estabelecidas para execução do Golpe de Estado, utilizou influenciadores digitais, militares e o Partido Liberal para potencializar os ataques ao sistema eletrônico de votação, com o fim de criar o ambiente propício para o êxito da empreitada criminosa”, diz um trecho do relatório.
Não é à toa que Valdemar Costa Neto, presidente e dono do PL, é um dos 37 indiciados pela PF por participação na trama.
A investigação mostra que o PL contribuiu com o golpe com dinheiro e logística. Pessoas do partido, como Valdemar e o ex-ministro general Braga Netto, trabalharam pelo golpe. Dinheiro público que financia os partidos foi usado pelo PL para ajudar no golpe de estado. Com parte destes recursos o PL contratou uma consultoria fajuta, que fez um relatório para disseminar a mentira de que havia fraude em urnas eletrônicas.
A PF conclui que Valdemar Costa Neto sabia que era tudo mentira. Mas aproveitou sua posição para divulgar o relatório e usou o partido para entrar com uma representação na Justiça Eleitoral para anular votos em algumas urnas. A ação não foi aceita, mas ajudou a conturbar o ambiente após a eleição de 2022.
Numa tradução prática, o dinheiro dos contribuintes foi usado pelo PL para disseminar uma mentira com o intuito de atentar contra a democracia e o estado democrático de direito.
De acordo com a Polícia Federal, planos práticos do golpe também passaram pelo PL. Na sede do partido em Brasília, mais especificamente na mesa de um assessor do general Braga Netto – que ganhou um cargo partidário de Valdemar -, foi encontrado um documento manuscrito, intitulado “Operação 142”, com uma espécie de esboço geral do golpe.
“O documento, dentro do tópico “Linhas de esforço”, propõe ações que incluem “interrupção do processo de transição”, “mobilização de juristas e formadores de opinião” e “enquadramento jurídico do decreto 142 (AGU e MJ)”. Outros tópicos possuem siglas e jargões próprios do militarismo como “CG Pol” (Centro de Gravidade Político), com a descrição de medidas autoritárias, que demonstram a intenção dos investigados em executar um golpe de Estado para manter o então presidente Jair Bolsonaro no poder: “Anulação das eleições”, “Prorrogação dos mandatos”, “Substituição de todo TSE” e “Preparação de novas eleições””, diz o relatório da PF.
Também foi encontrado nas instalações de Braga Netto no PL, um documento que indica que o conteúdo da delação premiada do ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, tenente-coronel Mauro Cid, pode ter sido vazado ao general três dias após ser homologado pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.
Um dos vários achados da investigação da Polícia Federal é que, pela primeira vez desde a redemocratização, um partido político foi usado para ajudar num golpe de estado.


