O primeiro indício da participação direta do influencer digital Renato Cariani no esquema de desvio de produtos químicos para a fabricação de drogas, investigado pela Polícia Federal, é uma troca de emails entre ele e uma pessoa que se identificou como funcionário da Astrazeneca. Cariani aparece na conversa como um dos sócios da Anidrol Indústria Química.
O diálogo foi obtido com exclusividade pelo Bastidor, que teve acesso a um inquérito da Polícia Civil de São Paulo, a uma ação que correu no Tribunal de Justiça do estado – e foi arquivada – e a documentos que serviram de base para operação Hinsberg, deflagrada nesta terça-feira (12).
Cariani aparece na troca de e-mails como um dos sócios da Anidrol Indústria Química. De acordo com a PF, foram identificadas 60 transações financeiras dissimuladas que resultaram em compras de 12 toneladas de produtos químicos que seriam usados para fabricação de 19 toneladas de cocaína e crack.
A PF cumpriu 18 mandados de busca e apreensão em endereços situados em São Paulo, Paraná e Minas Gerais. Apesar do pedido, a Justiça não autorizou a prisão de Cariani.
Em um dos e-mails obtidos pelo Bastidor, de 2017, o influencer negocia com Augusto Guerra, que se dizia gerente de compras da Astrazeneca, a venda de 50 quilos de cloridrato de licodaína e 500 quilos de cloridrato de fenacetina.
Os valores, segundo resposta de Cariani, eram de 126 reais o quilo da licodaína e 320 reais por quilo de fenacetina. Segundo os registros, a cotação foi aprovada com a compra de 100 quilos de licodaína, principal insumo químico desviado no esquema, e a possibilidade de negociações futuras.
Na troca de mensagens, Cariani insiste para se tornar fornecedor de outros itens em que sua empresa seria competitiva.


Em depoimento à Polícia Civil paulista, obtido pelo Bastidor, Cariani confessou que soube a partir de investigações da Receita Federal e da Polícia Federal que havia comercializado produtos químicos com pessoas que se passaram por representantes da Astrazeneca.
Cariani detalha à polícia que a retirada dos produtos comercializados foi feita pela própria Astrazeneca, em caminhões.


A investigação teve início após a Astrazeneca receber notificações da própria PF de possíveis infrações administrativas. A multinacional informou que nunca teve relação comercial com a Anidrol.

Extratos bancários e notas fiscais que constam na ação judicial mostram o uso do nome da Astrazeneca. A PF fala em “emissão fraudulenta usando laranjas para depósitos em espécie, como se fossem funcionários de grandes multinacionais, vítimas que figuraram como compradoras”.
As investigações, diz a PF, apontam para metodologias de ocultar e dissimular a procedência ilícita dos valores recebidos, “tais como interpostas pessoas e constituição de empresas fictícias.”
Os investigados responderão pelos crimes de tráfico equiparado, associação para fins de tráfico, bem como pelo crime de lavagem de dinheiro. As penas cominadas podem ultrapassar 35 anos de reclusão.

