O passeio de Damares Alves na Guatemala, onde participou de um evento religioso como ministra, está cercado de mistérios. Não se sabe o que Damares fez durante os dias 10 e 11 de março, quando esteve no país, nem com quem ela se reuniu.

A divulgação da agenda da pastora, em nítido descumprimento das regras da CGU, informa apenas que ela estava na “Missão Guatemala”. O que se sabe é que a ministra ficou dois dias na Guatemala e que recebeu autorização de Jair Bolsonaro em 23 de fevereiro para deixar o país em 9 de março e retornar no dia 19 – data em que terminou suas tarefas como ministra na ONU, em nova York.

Damares foi procurada pelo Bastidor, mas sua assessoria se limitou a enviar um link com um texto de três linhas onde está escrito que: “Foram discutidas parcerias e trocas de experiências na área de defesa da equidade e demais políticas públicas para mulheres”.

Esse tipo de segredo destoa do perfil da ministra nas redes sociais, sempre disposta a mostrar seus feitos e falar sobre suas teses – como a que relacionou abuso de meninas à falta de calcinhas e a que definiu cores para gêneros (azul para homens e rosa para mulheres). São parcos os registros da presença da pastora no evento, a maioria nos perfis nas redes sociais ligados à organização da celebração conservadora que nasceu no México, em 2016, e trilha seu caminho ao longo das Américas.

O mais próximo que se chega de saber sobre o itinerário de Damares é verificar a agenda de Angela Gandra, secretária nacional da família, que viajou junto com a ministra. A filha do jurista Ives Gandra teve dois dias agitados na Guatemala, com reuniões junto a organizações conservadoras.

Uma delas foi a Concerned Women for America, entidade cristã dos EUA conhecida por sua cruzada contra o aborto. Outro encontro foi com representante da Americans United for Life – escritório de advocacia dos EUA que luta contra pesquisas com células-tronco embrionárias e métodos anticoncepcionais.

O tema da primeira conversa é descrito genericamente na agenda de Angela, como discussão para “implementação da Declaração de Genebra”. O segundo é listado simploriamente como “reunião com Rocío Gómez”, associado sênior da Americans United for Life na América Latina.

Silêncio na Família

Cobrado pelas informações, que deveriam ser públicas, o Ministério da Família pediu inicialmente que a reportagem fizesse a solicitação via Lei de Acesso à Informação. Confrontado após a negativa, a pasta se justificou dizendo que o prazo de 3 horas dado pela reportagem para obter uma resposta seria muito exíguo.

Em seguida, após pergunta sobre quanto demoraria para obter os dados, parou de responder. O Bastidor quer saber o que a ministra fez na Guatemala, quem a acompanhou, quando custou a viagem aos cofres públicos, entre outras informações que deveriam ser de fácil acesso aos servidores.

A tática de direcionar jornalistas para solicitações via LAI tem sido comum desde que Jair Bolsonaro chegou ao Palácio do Planalto. São inúmeros os relatos de repórteres que são obrigados a usar a lei para obter informações simples e que deveriam estar públicas. Especialistas em dados e alguns parlamentares também acusam o governo de deliberadamente criar um “apagão de dados“, principalmente sobre a pandemia.