O senador Sergio Moro vinha sendo monitorado por um grupo de criminosos ligados ao PCC há pelo menos seis meses, segundo um relatório da Polícia Federal. O ex-juiz e ex-ministro era alvo de um plano que pretendia sequestrá-lo e, possivelmente, matá-lo, a mando de chefes da organização criminosa comandada por Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola.

De acordo com o documento, encaminhado à Justiça pela Polícia Federal, em que o delegado pedia a prisão dos suspeitos, o monitoramento de Moro estava sendo realizado pela “Restrita”, um grupo de inteligência montado pelo PCC, com ligações em diversos setores, cujo objetivo é obter informações privilegiadas para as atividades criminosas do PCC. Entre as atividades, eles monitoram desafetos e fornecem dados para permitir a eventual eliminação dessas pessoas.

As investigações tiveram início a partir da delação de um ex-membro do PCC. Em depoimento ao Grupo de Atuação Especial contra o Crime Organizado (Gaeco), de São Paulo, essa pessoa disse que tinha sido jurada de morte por um dos líderes da restrita, Janeferson Aparecido Mariano Gomes, conhecido por diversos pseudônimos.

Janeferson foi reconhecido pela testemunha que disse ter sido informado sobre um plano para atacar autoridades, incluindo Sergio Moro. A partir dos dados repassados por essa pessoa, no início de fevereiro deste ano, a Polícia Federal iniciou o monitoramento das atividades dele e de outras pessoas que estariam envolvidas no plano contra o senador.

A Justiça concedeu a quebra de sigilo telefônico do grupo, o que possibilitou desvendar os fatos que levaram à Operação Sequaz, deflagrada na quarta-feira (8), e que levou Janeferson e outras 10 pessoas. Todas são suspeitas de participar ativamente do grupo que pretendia sequestrar Moro.

O plano

Pelo menos desde setembro do ano passado, Moro, a mulher dele e os filhos vinham sendo monitorados de perto pelo grupo liderado por Janeferson. A polícia apurou que o PCC gastou cerca de R$ 5 milhões na operação, que envolveu o aluguel de carros e imóveis para a preparação e execução do plano contra o senador.

Embora estivesse na liderança desse ato, Janeferson não atuava sozinho. Ele se reportava diretamente a líderes do PCC. Em um dos prints de conversas entre ele e uma das mulheres que o apoiava, foi possível identificar ao menos dois líderes da facção criminosa, com quem ele falava por vídeo, enquanto trocava mensagens com ela.

Os criminosos eram detalhistas. Além do aluguel de imóveis próximos a endereços da família Moro em Curitiba, eles conseguiram apurar até dados pessoais da família, como o e-mail pessoal e o celular da filha dele.

Os dados que eram transmitidos por aplicativos de mensagens eram repassados em códigos. Os demais eram anotados em cadernos, tudo para garantir o sigilo das informações e dificultar eventuais investigações.

Em uma das mensagens, Janeferson pede para que uma das mulheres dele, Aline de Lima Paixão, guarde os códigos relacionados a ação contra Moro.

“Mesmo que autoexplicativo, registramos que “FLAMENGO” é o código para “SEQUESTRO”; “FLUMINENSE” é o código para “AÇÃO” (possivelmente assassinato); “TOKYO” é o código para “MORO” e, por fim “MÉXICO” é o código para “MS” (Estado do Mato Grosso do Sul)”, diz trecho do relatório da Polícia Federal.

O monitoramento mostra que os criminosos guardaram detalhes muito específicos sobre a rotina de Moro. Uma troca de mensagens sobre o local de votação dele traz detalhes até a respeito do número de câmeras, a distância entre elas e o número de seguranças que estariam protegendo o Clube Duque de Caxias, onde o senador votou nas últimas eleições.

Detalhamento mostra risco à família Moro

Ao se candidatar ao Senado, Moro recebeu proteção de seguranças por cerca de 180 dias, incluindo o período anterior e parte do tempo posterior às eleições. Isso teria dificultado a ação dos criminosos naquele período. Nem por isso, eles interromperam o monitoramento.

Segundo a Polícia Federal, até a escolha dos imóveis alugados pela quadrilha tinha como objetivo facilitar a eventual fuga, por serem próximos a várias saídas da cidade e com acesso fácil à rodoviária e aos aeroportos Afonso Pena e Bacacheri, além de ficarem nas imediações de locais onde a família se concentrava, como a residência deles e o escritório da mulher do senador, a deputada Rosângela Moro.

Eles também haviam considerado o aluguel de um sítio nas imediações de Curitiba e tinham apoio logístico de um grupo do PCC localizado em Paranaguá, cidade do litoral a cerca de 100 km da capital.

Outro ponto que chama a atenção é sobre o arsenal mantido pelos criminosos. “A utilização de armas de fogo ficou evidente desde a primeira quebra de dados, quando identificamos fotos de armas de fogo em residências, munições, planilhas de valores para a aquisição de armas, o que corrobora as anotações de ‘cofres’ encontradas, deixando claro a periculosidade dos investigados”, diz a Polícia Federal.

Os criminosos tinham ao menos um carro blindado para dar suporte ao sequestro, quando viesse a ser executado, além de outros dois veículos, que provavelmente seriam utilizados para dar o suporte armado à ação. Os carros seriam pintados de preto, para imitar viaturas da polícia e facilitar a execução dos crimes.

Moro e a família foram alertados sobre o perigo a que estavam expostos logo no início das investigações. Desde então, a segurança dele foi reforçada.

O procedimento de investigação contra os suspeitos segue sob sigilo, mas a Justiça Federal disponibilizou parte dos documentos que justificaram a prisão dos suspeitos.

Leia abaixo a íntegra dos documentos: