Aos 84 anos de vida e 65 de imprensa, 30 deles cobrindo o Supremo Tribunal Federal, morreu o jornalista Luiz Orlando Carneiro. Luiz O., como todos nós o chamávamos, era o decano da cobertura jurídica em Brasília. Construiu sua carreira por décadas no Jornal do Brasil e, nos últimos anos, exibia seus talentos no site Jota. Amava a família, os amigos e o Jazz – era uma referência mundial no estilo musical. Dedicava-se com afinco, regularidade e rigor raros ao ofício do jornalismo, no qual foi mestre, embora detestasse elogios. Em morte, terá que suportá-los: era reservado e sereno; gentil e generoso. Por isso foi tão admirado e será, justamente, homenageado por amigos, colegas e autoridades.

Das muitas histórias que podem contar quem foi Luiz O., uma gravou-se permanentemente em minha memória. Era 2002, e eu trabalhava no “Informe JB”, uma coluna de notas políticas do Jornal do Brasil. Após décadas de uma carreira já consagrada, Luiz O. seguia como repórter da sucursal de Brasília do jornal. Eu tinha 20 anos e era estagiário. Importunava Luiz O. com frequência, em busca de orientação e, claro, aprovação. Ele nunca se negava a ajudar. Encontrava tempo para conversar sobre questões que, suponho, repetiam-se há décadas em papos semelhantes. Eu sabia que minhas dúvidas juvenis poderiam ser tediosas para Luiz O.. Não eram. Melhor: eram, mas o ato de ajudar e ensinar, não. Luiz O. gostava de repassar o que aprendera. Era, repito, um mestre.

Numa manhã de sexta naquele ano, não me recordo em qual mês, acordei com a ligação de um assessor do então presidente do Superior Tribunal de Justiça. Ele estava furioso. Reclamava de uma nota publicada naquele dia no “Informe JB”. Era uma notícia simples, mas crítica ao presidente do STJ. O assessor trabalhara no JB, onde fomos colegas próximos. Ele não apontou erro na nota. Mas parecia fora de si. Entre palavrões, exigiu saber minha fonte – a pessoa que, sob a proteção do anonimato, dera-me a informação correta. Como o leitor do Bastidor provavelmente sabe, um jornalista sempre protege suas fontes, salvo em casos excepcionais. Faniquito de assessor não é um deles.

O assessor não se deu por vencido. Pediu para nos encontrarmos pessoalmente. Na conversa, fez de tudo para que eu entregasse a fonte. Parecia ter assegurado ao ministro que, em face de nossa relação e da minha idade, eu me dobraria. Ameaçou-me: se não declinasse o nome de quem passara a informação, eu perderia meu emprego. O presidente do STJ ligaria para os donos do jornal e pediria minha cabeça. Resignado com meu destino, neguei-me a aquiescer.

Eu era jovem, mas não era burro. Sabia que a ameaça do assessor não era blefe. Sabia também que não seria tão difícil queimar um estagiário. Cheguei à redação do JB, bati à porta de Luiz O. e contei o que se passara. Queria a ajuda dele, mas não para contornar o episódio – ao menos não conscientemente. Entre conformado e envergonhado, perguntei se ele poderia conversar com colegas em outras redações. Queria ajuda numa improvável entrevista de emprego.

Não foi o que aconteceu. Pela primeira e última vez, vi Luiz O. perder a calma que lhe era tão característica. Seu rosto contraiu-se numa careta elegante. Proferiu um palavrão, fez sinal para que eu permanecesse sentado e para que fechasse a porta de sua sala. Abriu em silêncio sua caderneta de telefones, buscou o nome do assessor e discou o número no velho telefone fixo de sua mesa. “O senhor deveria se envergonhar do que está fazendo”, disse, e pôs-se a enquadrar o assessor com uma educação e uma civilidade que, pelo o que pude notar, calaram o interlocutor. Ato contínuo, ligou para um dos donos do jornal. Explicou a situação didaticamente e alertou que o presidente do tribunal ligaria para ele. O próprio telefonema e o modo como ele expôs o caso transmitiam o recado: demitir o estagiário significava comprar briga com o decano de um jornal que, naquele momento, ainda detinha alguma relevância.

Devo ter mantido uma cara apalermada enquanto Luiz O. manejava sua caderneta e seus contatos para salvar um estagiário que certamente tinha mais petulância do que juízo. Talvez percebendo meu embaraço, sorriu um sorriso paternal. “Pode ir trabalhar tranquilo”, disse. Se a memória e as minhas anotações não me traem, apenas agradeci. E fui trabalhar.

O presidente do STJ ligou, de fato, para o dono do jornal. Mas, ao que fui informado, encontrou uma resistência incomum do outro lado. Mantive o emprego (por um tempo) e ganhei um exemplo (para a vida). Por essa e tantas, tantas outras, eu e muitos sentiremos falta de Luiz O.