Diante da multidão verde e amarela em Brasília, o presidente Jair Bolsonaro não fraquejou. Buliçoso, precisou de apenas cinco minutos com a mão no microfone para reduzir a comemoração do bicentenário da Independência do Brasil a um comício eleitoral que entrará nos anais da República.
Num minuto, Bolsonaro trajava a faixa presidencial no desfile militar. Noutro, já estava num palanque montado na mesma Esplanada dos Ministérios. Dotado de priapismo integralista, falava como candidato à reeleição. Subiu ao carro de som para proclamar: “Imbrochável! Imbrochável! Imbrochável!”. Seus numerosos apoiadores não o acompanharam. Do grito mítico de Dom Pedro I de “Independência ou Morte” ao mito do grito fantasticamente real de “Imbrochável”, o país parece ter percorrido 200 anos livre para não sair do lugar.
Ao cabo, Bolsonaro desfez as fronteiras entre o público e o privado ao transformar uma celebração cívico-militar num ato de campanha. O 7 de Setembro cedeu lugar ao 7 de Bolsonaro.
As multidões em Brasília, São Paulo e Rio deram ao presidente uma vitória política que transcende a campanha à reeleição. Demonstraram a força popular de Bolsonaro. Consagraram a captura de símbolos nacionais – a bandeira; o verde e amarelo; o Dia da Independência; e, em última análise, uma história que se conta sobre o Brasil. A Pátria é bolsonarista. Ou, como dizem os apoiadores do presidente: “Nossa bandeira jamais será vermelha”.
Essa captura, ou esse sequestro ideológico, sobreviverá às eleições. Mesmo que Bolsonaro saia do poder, o bolsonarismo permanecerá, em verde e amarelo. A apropriação indébita – a usurpação – das cores da Pátria prosseguirá por muitos anos. Será um fato da vida nacional.
As festividades do bicentenário da Independência confirmam outra captura do bolsonarismo – a captura das Forças Armadas. Cinquenta anos após o general Emílio Médici usar o 7 de Setembro para unir Pátria e força militar de modo desabusado, coroando o período mais violento da ditadura até com partida de futebol, Bolsonaro recorre a expediente político semelhante.
Depois do 7 de Setembro de 2022, será difícil dissociar as Forças Armadas do bolsonarismo. Como afastar a percepção de que tanques, caças e o aparato militar estão a serviço de Bolsonaro, e não do país? A força simbólica das imagens e dos eventos do bicentenário da Independência perdurará, em tributo infame ao capitão reformado que subverteu a ordem da política brasileira.

