Após Lula impor o debate da economia no início da campanha, Jair Bolsonaro está conseguindo mudar o eixo eleitoral para a pauta de costumes. Nos últimos dias, a questão religiosa e temas correlatos tomaram conta das redes sociais – e de atos e falas dos dois candidatos.

Em tese, a mudança é favorável a Bolsonaro. A economia, apesar de alguma melhora, não é um terreno bom a ele. Remete às boas lembranças dos governos de Lula. Temas como religião, contudo, são favorecem a estratégia de Bolsonaro de buscar um apoio mais emocional contra o PT.

Nas redes sociais, os filhos e apoiadores de Bolsonaro acusam Lula de coisas como ser favorável ao aborto, à legalização das drogas e ao abuso sexual de crianças. Não há nenhuma base para atribuir isso a Lula ou a seu partido. Mas falsidades dessa cepa são exploradas, inclusive pelo senador Flávio Bolsonaro.

A ida de Bolsonaro a Aparecida (SP), na quarta-feira, e a vergonhosa intimidação protagonizada por alguns de seus apoiadores, opôs os dois. Lula condenou o comportamento dos bolsonaristas, entrando no terreno bom para o adversário. 

O deputado André Janones, apoiador de Lula e agora poderoso na estratégia digital petista, compartilhou uma postagem falsa, na qual Bolsonaro defendia evangélicos e atacava católicos devido ao duro discurso feito pelo bispo dom Orlando Brandes.

Bolsonaro tem mais a ganhar com isso. Ele sempre preferiu apelar aos sentimentos dos eleitores a apresentar propostas concretas e racionais. A questão é o momento da campanha. As pesquisas mostram que a agressividade política, que domina o discurso de Bolsonaro, esgotou o eleitor. É uma belicosidade que vem desde 2019.

Ter o tema da campanha em suas mãos é bom para Bolsonaro, mas isso pode ter chegado tarde demais, num momento em que ninguém mais aguenta “briga por política”, como classificam os eleitores genericamente.

De acordo com a pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta quinta, há 4% de eleitores indecisos a ganhar – outros 6% que vão votar branco ou nulo são mais difíceis de convencer. Outra questão é persuadir cerca de 20% do eleitorado que não votou no primeiro turno a comparecer ao segundo. Como dizem os eleitores aos pesquisadores, não é com “briga” que se convence eleitor a votar.