Cada vez mais poderoso e desabusado, Arthur Lira não manda mais recados ao Palácio do Planalto – manda ordens. A mais recente causou um conflito silencioso entre os principais atores de Brasília.

O presidente da Câmara quer indicar o próximo ministro da Infraestrutura. (Tarcísio de Freitas deixará a Esplanada em breve para concorrer ao governo de São Paulo.) O cargo, porém, já estava prometido – e Lira sabe disso – a Valdemar Costa Neto.

Lira não quis saber. Exigiu a pasta, desta feita em sua “cota pessoal”. Seria uma retribuição por ter segurado o impeachment de Bolsonaro e ajudado o governo em alguns projetos.

O Planalto fez uma contra-proposta: o Ministério do Desenvolvimento Regional. Rogério Marinho sairá da pasta nas próximas semanas, também para concorrer nas eleições deste ano.

O presidente da Câmara redarguiu que já tem a Secretaria de Mobilidade Urbana, o cargo mais estratégico desse Ministério. E voltou a insistir junto ao Planalto: não tem negociação – é o Ministério da Infraestrutura ou nada.

Após proceder ao ultimato, determinou a pessoas próximas que espalhassem, entre políticos de confiança, que ele, Lira, acredita que Bolsonaro pode desistir da reeleição e que o Centrão pode abandonar o presidente.

O método é comum entre políticos como Lira. A informação – na verdade, o recado – foi transmitida a jornalistas e publicada. Bolsonaro e seus aliados entenderam.

O presidente ainda não decidiu se cede a Lira. Aliados de Bolsonaro dividem-se sobre o melhor curso de ação. Alguns avaliam ser mais estratégico manter o presidente da Câmara satisfeito – ao menos por ora. Outros acreditam que, se prosseguir fazendo as vontades de Lira, Bolsonaro terá o mesmo destino de Dilma, ainda que seja reeleito.