Os relatos não confirmados de que a Polícia Rodoviária Federal agiu para atrapalhar o transporte de eleitores no Nordeste expuseram o aparelhamento da corporação. Nos últimos anos, todos os cargos relevantes da PRF foram ocupados por policiais leais à família Bolsonaro.

Silvinei Vasques, atual diretor da PRF, é bolsonarista raiz. Aproximou-se do senador Flávio Bolsonaro quando era superintendente da PRF no Rio. A relação se estreitou a tal ponto que Flávio indicou o amigo ao cargo que hoje ocupa. Silvinei chegou a declarar ontem à noite, no Instagram, voto em Bolsonaro.

A equipe de Silvinei em Brasília e os superintendentes nos estados são majoritariamente bolsonaristas. Parte expressiva do efetivo, segundo múltiplos policiais da força, apoia o presidente e sua política de expandir as atribuições da PRF. A força passou a atuar com mais destaque em operações de apreensão de drogas e contrabando, com alta letalidade. Deixou de fiscalizar com o mesmo afinco tráfico de armas.

A captura bolsonarista da PRF confere verossimilhança à suspeita de que o efetivo agiu, ainda que pontualmente, para fiscalizar ônibus públicos que transportavam eleitores – em arrepio ao que havia determinado o diretor da PRF em circular (leia abaixo) na madrugada e em violação à decisão de ontem do ministro Alexandre de Moraes, presidente do Tribunal Superior Eleitoral.

De acordo com quatro policiais ouvidos pelo Bastidor sob reserva, incluindo um que compõe a direção da corporação, o efetivo da PRF começou o dia com “ímpeto incomum”, na palavra de um deles, para fiscalizar o transporte de eleitores. Pela primeira vez, segundo essas fontes qualificadas, suspeitas de transporte ilegal de eleitores passaram a ser prioridade, em detrimento da busca por dinheiro vivo para compra de votos e confusões em rodovias – algo comum em dia de eleição em alguns rincões do país, onde cabos eleitorais bloqueiam estradas para atrapalhar votos de eleitores dos adversários.

Os policiais afirmam que não houve orientação da cúpula da PRF para essa fiscalização. Diante da celeuma prévia na Justiça em torno do transporte gratuito e da afinidade ideológica e política da maioria do efetivo, as ações foram, na definição de um deles, “orgânicas”. Entre os policiais e a cúpula da PRF, as abordagens foram descritas como necessárias por violações ao Código de Trânsito.

Até o começo da tarde, havia, ao menos, cerca de 500 abordagens. A maioria delas “logada” como possível infração de trânsito – e não como transporte eleitoral ilegal. A malandragem permite dizer que não houve descumprimento da decisão do TSE e da circular da direção da PRF. Quantas das abordagens ocorreram no Nordeste? É essa a pergunta que um dos policiais que tem acesso ao sistema em Brasília não responde.

As informações sobre as abordagens foram repassadas pela PRF a Moraes. Policiais, contudo, afirmam que somente uma auditoria externa ou a ação do Ministério Público Federal podem esclarecer se alguma dessas abordagens foi ilegal. E, em caso positivo, quantas e qual o impacto, se existir, na votação. Segundo a cúpula da PRF, nenhum ônibus ou carro foi impedido de prosseguir viagem.

É importante frisar: como, até agora, os relatos disponíveis nas redes sociais são frágeis e esparsos, ainda não é possível saber se as suspeitas procedem. E, caso procedam, em qual escala. Não menos importante, a impossibilidade de haver respostas rápidas e factualmente confiáveis decorre da captura política da corporação. “Eu mesmo não confio no que está no sistema”, afirma um dos policiais. Nenhuma dessas fontes tem simpatia pelo PT ou por Lula.

Leia as decisões de Alexandre de Moraes envolvendo a Polícia Rodoviária Federal e a circular do diretor-geral da da PRF: