A subserviência cega do ex-diretor-adjunto da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Victor Carneiro, ao então ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Augusto Heleno, poderia ter sido evitada, não fosse uma manobra de Jair Bolsonaro no início de 2022.
À época, o Bastidor mostrou que Carneiro foi alçado ao cargo para substituir o delegado Alexandre Ramagem, que se elegeu deputado federal. Entretanto, a decisão de colocá-lo como adjunto foi uma manobra para evitar a sabatina obrigatória que ocorreria no Senado, caso ele assumisse a Abin definitivamente.
No discurso em que fez diante de Bolsonaro, no qual defendeu a infiltração de agentes da Abin, nas campanhas eleitorais de 2022, Heleno afirmou que já havia conversado com Carneiro para acertar os detalhes da operação. Embora não se saibam ainda todos os detalhes dessa conversa, a fala de Heleno dá a entender que o então adjunto tinha algum conhecimento das ações irregulares que viriam a acontecer.
A sabatina no Senado, claro, não teria como impedir as ações ilegais que aconteceram na Abin. Mas a entrevista de emprego feita pelo parlamento tinha, sim, condições de prever eventuais desvios de conduta durante a gestão de Carneiro. Mas a Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência, à época comandada pela então senadora Kátia Abreu e pelo deputado federal Aécio Neves, sequer se pronunciou sobre a manobra.
Carneiro não foi investigado; Ramagem, que aparece em outra investigação, nega as acusações.

