É de mentirinha a alardeada trégua entre o presidente Jair Bolsonaro e o ministro do Supremo Alexandre de Moraes. Trata-se de um movimento tático de Bolsonaro para tentar ganhar tempo com Moraes antes de deflagrar uma nova ofensiva contra as urnas eletrônicas e o próprio futuro presidente do Tribunal Superior Eleitoral.

A exemplo do que Lula e o PT fizeram no auge da Lava Jato com Sergio Moro, Bolsonaro e seus estrategistas mais próximos prosseguem com a tentativa de pintar com cores políticas e ideológicas as ações de Moraes e de outros ministros do TSE e do Supremo. Não precisa ser verdade; basta criar-se a percepção de que pode ser verdade.

Eles querem conduzir Moraes e Edson Fachin à arena política, de modo que qualquer decisão judicial dos dois possa ser objeto de suspeição – se não jurídica, perante o público. Está em curso a estratégia de enquadrar, ou ao menos constranger, o TSE e o Supremo mediante novos ataques a ministros. Aliados do presidente buscam flancos para isso.

O objetivo é subtrair legitimidade de qualquer medida tomada contra Bolsonaro e sua família. Prevalece o temor de que Moraes e seus colegas possam atacar o presidente e seus filhos, por meio de operações policiais.

Não é de hoje que Bolsonaro e seus aliados acreditam que os ministros do Supremo, notadamente Moraes, mantêm inquéritos abertos contra eles como instrumentos de dissuasão política – como armas que podem ser acionadas ao talante dos ministros. Segundo estrategistas do presidente, aumenta a cada dia a convicção de que “estão armando” contra ele.

Ou seja, que os ministros do Supremo e do TSE não “permitirão” que Bolsonaro seja reeleito. Ademais, se perder a eleição, o presidente segue convencido de que será preso, em virtude da perseguição que enxerga no Supremo – cujos ministros estariam em conluio com Lula.

Diante desse cenário, os operadores de Bolsonaro seguem à cata de elementos que possam ser usados contra quem julgam ser seus inimigos: Moraes, as urnas, Fachin e Lula – talvez nessa ordem. A trégua anunciada é um engodo tático. Os dois lados sabem disso.