O último debate da campanha eleitoral mais suja da história recente foi uma troca de pontapés verbais de duas horas. Os que ficaram até tarde esperando uma discussão razoável entre Lula e Jair Bolsonaro sobre temas relevantes saíram decepcionados.

Bolsonaro é mais prejudicado pelo resultado da noite. Em segundo lugar nas pesquisas, ele tinha a obrigação de buscar conquistar mais eleitores do que Lula. Mas Bolsonaro entrou com uma postura contrária a isso, voltada a atacar Lula em vez de tentar discutir alguns temas e fazer comparações. O saldo final é que Lula aproveitou um pouco melhor que Bolsonaro a última chance de conquistar eleitores indecisos.

Bolsonaro esteve mais agressivo que nos debates anteriores. Em cerca de cinco minutos de debate, já havia chamado Lula de “mentiroso” três vezes. Devido a uma fala sua sobre a situação judicial de Lula, o presidente provocou uma coisa inédita, um direito de resposta do apresentador William Bonner.

Lula aderiu à briga, mas durante todo o debate tratou Bolsonaro com certo sarcasmo, como alguém incapaz de conduzir o país e com pouco conhecimento do governo e insensibilidade. Em várias ocasiões, pediu desculpas diretamente para a câmera pelo que dizia Bolsonaro.   

Foi o melhor debate de Lula. Apesar de erros primários, como perguntar a Bolsonaro sobre meio ambiente e não ter os dados básicos de comparação do desmatamento nos dois governos, o petista esteve mais ágil. Quando Bolsonaro falou em prosperidade, Lula devolveu com “só se for da tua família”, seu primeiro revide convicto no tema corrupção. Desta vez, Lula também soube controlar seu tempo.   

Em toda campanha, Bolsonaro demonstrou ter dificuldades nos debates. O presidente joga apenas com ataques e tem sérias dificuldades para argumentar com dados e escapar quando é pego em contradição. Nesta noite, Bolsonaro parecia nervoso. Nas considerações finais, num ato falho, pediu mais um mandato de “deputado federal”, em vez de “presidente” (se corrigiu em seguida).

Lula, por seu lado, demonstrou que os anos longe das eleições fizeram diferença: como um jogador que retoma a carreira, ele esteve lento, a ponto de perder diversas oportunidades fáceis. Em toda campanha não conseguiu ter uma resposta decente quando foi confrontado com o tema corrupção. Também abusou da soberba em alguns momentos.  

Evidência do que foi o debate, as palavras “mentira” e “mentiroso” foram as mais pronunciadas pelos dois. Ficou claro que nem que houvesse mais dez debates seria possível obter uma discussão razoável dos dois candidatos sobre temas de interesse dos eleitores. Eles terão de decidir sem isso.