Quem estava lá garante: o salão do Grande Palácio do Povo mergulhou num silêncio constrangedor. À mesa de Xi Jinping, Janja ignorou o roteiro, encarou o líder chinês e disse: “O TikTok está turbinando a extrema-direita e espalhando ódio”. Sem mandato nem aviso, a frase congelou intérpretes, fez diplomatas trocarem olhares aflitos e inaugurou no Itamaraty o verbete “caso TikTok”. Não foi mero deslize: evidenciou que o voluntarismo da primeira-dama já transpôs a linha do risco geopolítico — abrindo mais um flanco de desgaste para o terceiro mandato de Lula.

A lista de gafes de Janja é longa. Começou na porta do Alvorada, quando a primeira-dama exibiu à TV sofás rasgados e denunciou o “sumiço” de 261 peças do acervo – todas depois encontradas em depósitos do próprio palácio, rendendo condenação judicial à União a favor de Bolsonaro. Vieram, na sequência, o vídeo “Me segura que vou dançar” postado (e apagado) na Índia enquanto enchentes castigavam o Sul; o improviso no TRF-3 em que confundiu STJ com STF e entregou honrarias a uma juíza amiga; o xingamento “I’m not afraid of you, fuck you, Elon Musk” no G-20 Social; e a operação de resgate do cavalo Caramelo, que expôs o contraste entre empatia seletiva e tragédia humana no Rio Grande do Sul. Cada saída de tom reforça a imagem de uma primeira-dama sem freios nem mandato formal, mas com acesso irrestrito ao palco presidencial.

O efeito político é corrosivo. Assessores do Planalto relatam desgaste interno: ministros precisam estancar danos que drenam a agenda de Lula, já pressionado por base dividida e oposição ruidosa. Externamente, o risco é econômico e diplomático. A China — principal parceira comercial — engoliu a desfeita para evitar crise maior; Elon Musk respondeu com sarcasmo, mas poderia retaliar em frentes como conectividade e carros elétricos. Nos dois casos, a ofensiva retórica de Janja avançou na contramão da diplomacia pragmática que Lula tenta vender a investidores e governos.

O contraste com primeiras-damas anteriores é notável. De Darcy Vargas a Ruth Cardoso, a regra foi atuar em causas sociais com sobriedade institucional – jamais ditar o tom de política externa ou travar duelos públicos. Ao romper esse molde, Janja ocupa um vácuo normativo: fala como militante, mas é recebida como representante do Estado. Essa ambiguidade embaralha a divisão republicana de responsabilidades e oferece munição a adversários que a descrevem como “poder paralelo” sem voto.

A bem da verdade, desconhece-se quem, no Planalto, vê em Janja um ativo, em vez de um passivo – um problema – cada vez maior para um presidente que não consegue, ou não quer, impor limites à primeira-dama. Janja está sempre a um post ou brinde de causar embaraço a Lula e ao Brasil. 

O terceiro governo de Lula já seria problemático sem a colaboração de Janja. Como o presidente não a isolará mais, o restante de seu mandato e uma eventual campanha à reeleição dependem de um ajuste mínimo na participação da primeira-dama, de modo a conter danos. Os rompantes de Janja quebram a liturgia exigida pelo cargo – liturgia que, goste-se ou não, continua a pautar relações de poder em Brasília e no exterior. Não entender isso é trabalhar pelo fracasso do terceiro mandato do petista.