Embora tenham serventia limitada, pesquisas eleitorais antecipadas, especialmente dos institutos mais renomados, viram fato político. Influenciam articulações partidárias. Ajudam a movimentar pré-candidaturas – para cima, rumo à consolidação, ou para baixo, rumo ao cemitério político que aguarda a maioria dos projetos presidenciais.
É o caso da pesquisa Datafolha divulgada há pouco. Num cenário inédito, sem Doria e Moro, e portanto incomparável com os levantamentos anteriores, ela mostra a previsível consolidação das candidaturas de Lula (48%) e Jair Bolsonaro (27%).
Como a divulgação de pesquisas de diferentes institutos, com metodologias distintas, sucede-se no noticiário, é fácil se confundir na numeralha e extrair dos percentuais conclusões que não se sustentam, técnica ou empiricamente. Ademais, o leitor bem sabe que não faltam aqueles prontos a amassar os números conforme lhe convêm.
Em meio a tanto ruído, o sinal político essencial é relativamente simples, sonolento diante do barulho das redes: Lula e Bolsonaro caminham para disputar quem será presidente da República em 2023. Um fato político como o anúncio do novo Datafolha ajuda a cavar a cova das demais pré-candidaturas, para abusar da metáfora que abre este texto. Não são as pesquisas, observe-se, que enterrão a terceira via ou como se queira chamar as alternativas; são os eleitores e os incentivos partidários que hoje prevalecem.
Eleger deputados mantém ou aumenta o fundo partidário, principal fonte de dinheiro dos políticos. Oferece o melhor retorno sobre o investimento. Candidaturas locais competitivas têm baixo risco e maior potencial de vingar. Uma candidatura presidencial é um investimento caríssimo para qualquer partido e, no cenário que se desenha, apresenta risco intolerável. A chance de derrota é imensa. Num mercado político cada vez mais competitivo, em que partidos disputam talento e espaço finito, os chefes das legendas também calculam o custo de oportunidade. Afinal, dinheiro numa candidatura A é dinheiro que não foi para a candidatura B. É preciso escolher com inteligência.
Se acertado, o retorno para o investimento no Planalto é incalculável. Vai muito além de fundo partidário, por óbvio. O PT está bem posicionado para seguir apostando em Lula. Ele tem chances reais de ser eleito.
Como dono da caneta presidencial e de uma base mais coesa do que alguns supõem, Bolsonaro também tem chances reais. Até hoje, ninguém perdeu uma reeleição presidencial. Somente quem está no poder ou dele depende para a sobrevivência política sabe o tamanho do torque do bólido da Presidência. É como disputar uma corrida numa Ferrari. Bolsonaro, como seus antecessores, acelera o carro como pode e não pode.
Tanto Lula quanto Bolsonaro têm um longo caminho a percorrer até o primeiro turno. A vasta maioria dos brasileiros dizem já ter decidido em quem votarão. Porém, quem entende de campanha sabe que muita, mas muita coisa mesmo, pode mudar até outubro. Excetuado o imponderável, contudo, deixando de lado por um momento aqueles fatos raros, inesperados e repentinos que alteram subitamente o destino de uma eleição, resta cada vez mais evidente que tanto os chefes partidários quanto os eleitores não querem uma opção a Lula e a Bolsonaro. É uma via inviável.

