Um erro comum na política é usar resultados de eleições municipais para antecipar tendências nacionais. Tenta-se, em dias como hoje, divisar o futuro da política em Brasília por meio das urnas locais. Se o objetivo é projetar quem tem mais ou menos chances de ser competitivo nas eleições presidenciais, trata-se de bicuda analítica. Rende lacrada e hashtag em rede social. E só.
Pode parecer estranho, mas não há como estabelecer algum tipo de relação causal entre vitórias e derrotas de prefeitos e suas respectivas forças políticas e as chances de candidatos presidenciais dois anos depois. São eleições, por definição, com características distintas, e separadas, fosse isso pouco, por dois anos.
Bolsonaro não estava nas urnas. Nem Lula. Nem o bolsonarismo ou o petismo. Doria também não estava, assim como Moro. Não houve plebiscito sobre ideias ou ideologias, existentes ou fantasiosas. Ondas imaginárias vieram somente de simpatias ou antipatias de quem as descrevia.
Apesar do persistente vício de nossa elite de usar o Twitter como espelho do país, fascismo e comunismo não estavam nas urnas. Eram, pasme, candidatos – com suas propostas (ou ausência delas), seus currículos (ou ausência deles) e, no caso de quem buscava reeleição, sua aprovação (ou rejeição) junto aos eleitores.
É evidente que o mapa eleitoral municipal oferece lições de toda sorte. Mas, entre elas, não se encontram fatos que permitam interpretar ascensão ou queda de Bolsonaro e Lula, os principais atores políticos do país.
Candidatos apoiados por Bolsonaro deram-se mal, mas a rejeição nacional ao presidente já era crescente antes das eleições – e não se pode afirmar que esses políticos perderam por causa da fragilidade do bolsonarismo.
O mesmo vale, em algum grau, para candidatos de esquerda. A derrocada do PT, que não elegeu sequer um prefeito em capitais, já está em curso desde 2016. No entanto, Lula mantém um formidável capital político. Formidável, mas insuficiente para eleger alguém em 2022. Isso também já se sabia antes das eleições municipais. Covas foi reeleito pelo o que a maioria da população de São Paulo acredita que ele fez de bom – não pelo apoio de Doria. Ao contrário: Covas precisou esconder Doria, cuja rejeição é crescente.
Para frustração de quem quer prever as eleições presidenciais, a mesma ausência de fatos, embora óbvia, aplica-se a Sergio Moro, Luciano Huck ou a qualquer outra possível opção para concorrer contra Bolsonaro.
A eleição presidencial de 2022 continua tão aberta e incerta após o pleito municipal de 2020 quanto era antes dele.

