Antecipada pelo Bastidor, a autorização da Anvisa para o uso emergencial das vacinas da Sinovac (Coronavac) e da AstraZeneca (Covishield) é um triunfo momentâneo da ciência brasileira e das instituições do país, numa época em que ambas nunca foram tão necessárias – e tão desprezadas.
Apesar do ceticismo compreensível quanto à confiabilidade da Anvisa, em virtude do aparelhamento político da agência, prevaleceram, desde o início da análise emergencial das vacinas, os critérios técnicos estabelecidos pelos servidores de carreira do órgão.
Sobressaíram a transparência e a razoabilidade na condução do processo, seja na avaliação dos imunizantes, seja na decisão de autorizar o uso da Coronavac com as devidas ressalvas científicas, em razão da calamidade em que vivemos.
A Anvisa cumpriu sua função institucional de vigilância sanitária – algo que separa o Brasil de países como Rússia, China, Turquia e Indonésia, nos quais, com frequência, a ciência está a serviço do estado, e não da população.
O voto da diretora Meiruze Freitas, relatora dos pedidos de uso emergencial, acompanhado por seus quatro colegas, foi uma defesa da boa ciência e das boas práticas sanitárias. Afastou tecnica e politicamente a agência do negacionismo do governo Bolsonaro.
Isso não deveria ser necessário; a Anvisa é, formalmente, independente. Mas as indicações políticas para a diretoria da agência criaram uma suspeição que precisará ser constantemente combatida pelo corpo técnico da agência.
Infelizmente, o Ministério da Saúde não dispõe mais de qualquer dose de credibilidade. Produz cascata e desordem em escala industrial. Após a patacoada das vacinas na Índia, qualquer informação só pode ter alguma confiabilidade se vier acompanhada dos respectivos documentos comprobatórios.
A inépcia tragicômica de Eduardo Pazuello e o negacionismo negligente de Jair Bolsonaro agravam o quadro já desesperador do Brasil. A severidade da pandemia no país é maior do que muitos supõem, como atestam reservadamente técnicos do SUS e da Anvisa. O trágico colapso em Manaus constitui um alerta, e não um episódio isolado.
Nesse cenário, em que autoridades capricham em frases de efeito histriônicas (João Doria) ou abusam em tuítes de desinformação negacionista (Jair Bolsonaro), os cientistas da Anvisa, do Butantan e da Fiocruz concederam aos 211 milhões de brasileiros o alívio de uma vitória, ainda que frágil; ofereceram a perspectiva de alguma esperança, representada, há pouco, na figura da enfermeira Mônica Calazans, primeira brasileira a ser vacinada.
Doria e Bolsonaro seguirão na troca de sopapos verbais. As manobras de marketing dos dois permanecerão. Resultarão em lucros e prejuízos políticos aos candidatos presidenciais em 2022. Mas as vitórias que interessam serão possivelmente invisíveis: as vidas salvas em virtude das vacinas aplicadas nos braços dos brasileiros.

