Antes de tomar uma decisão, políticos passam horas tentando adivinhar a reação dos adversários. A depender do que acham, muitas vezes desistem, outras seguem em frente, mesmo ao saber o que pode vir. A escolha de Ricardo Lewandowski para o Ministério da Justiça pelo presidente Lula se encaixa no caso.

Brasília boceja quando é preciso dizer pela milésima vez que Lewandowski sempre foi um ministro do Supremo Tribunal Federal próximo do PT. Em vários momentos, suas decisões beneficiaram o partido e seus integrantes.

Sua escolha para o Ministério da Justiça, portanto, dá vários argumentos aos adversários em ano eleitoral. Sem precisar pensar muito, os bolsonaristas poderão gritar que a nomeação é apenas um acerto de contas, porque Lewandowski foi o ministro que “tirou Lula da cadeia”.

A saída de Lula da cadeia não foi simples assim. Mas o discurso político tolera quase tudo, em especial quando dito na ocasião propícia.

A nomeação de Lewandowski, portanto, é uma escolha de Lula por questões políticas, não leva em conta o jogo eleitoral dos próximos meses nas eleições municipais.

Por outro lado, com Lewandowski Lula consegue melhorar ainda mais a relação com o Supremo. Em tempos de disputa áspera entre poderes, o Judiciário – representado pelo Supremo – tem sido aliado do Executivo e adversário do Legislativo.

Com a indicação de Flávio Dino, um senador, para o Supremo, Lula criou uma chance de abertura de um diálogo melhor entre Judiciário e Legislativo. Faz o mesmo com Lewandowski, só que no sentido Executivo-Judiciário.

Por fim, apesar de ser próximo do PT, Lewandowski não é um político. Como ex-ministro do Supremo, está acima das disputas partidárias, o que evitou que o presidente caísse na armadilha de precisar atender o PT em detrimento do PSB ou vice-versa. Há insatisfação entre o PSB nos escalões inferiores, mas o tom não passará disso devido ao peso de Lula e Lewandowski.