A origem da vitória de Arthur Lira está na ambição de Rodrigo Maia em buscar um quarto – e inconstitucional – mandato consecutivo como presidente da Câmara.
Essa decisão de Maia conduziu à sequência de eventos cujo desfecho lógico apresentou-se nos 302 votos que entregaram ao centrão o controle do destino político de Jair Bolsonaro.
Ao resolver trabalhar por mais dois anos à frente da Câmara, Maia forçosamente precisaria romper os acordos que haviam garantido seu último mandato. Para se eleger, Maia concordara com uma sucessão aberta, na qual seus aliados tivessem chances reais.
Não há bobos em Brasília. Os deputados logo perceberam os planos de Maia – uns mais cedo do que outros; entre eles, os líderes do PP. As atitudes ambíguas do então presidente da Câmara não deixavam dúvidas quanto a seu projeto pessoal de poder.
A mesma ambiguidade sobre as posições políticas de Maia causou temor em Bolsonaro – a possibilidade de impeachment passou a pairar como uma ameaça real. O presidente precisa de inimigos, reais ou imaginários, para fazer política. Acabara de encontrar um.
O impasse na instalação da comissão de Orçamento do Congresso foi a etapa seguinte. A controvérsia que impediu o começo dos trabalhos já refletia a condução ambígua de Maia em sua sucessão.
No decorrer de 2020, Maia negava o que estava evidente para todos em Brasília: ele tentaria um novo mandato. Quanto mais negava, mais aliados perdia.
Esse processo político culminou com o julgamento no Supremo sobre a possibilidade de um novo mandato para Maia e Davi Alcolumbre. A derrota no Supremo não destruiu apenas a chance de Maia ser eleito novamente; implodiu a aliança que o sustentava há anos.
Os fatos subsequentes demonstraram que não havia um plano B. O candidato era Maia – e apenas Maia. Daí a demora na escolha do nome de Baleia Rossi. Não havia mais composição possível. Os deputados não confiavam mais na liderança de Maia.
A candidatura de Lira fortaleceu-se nos erros do então presidente da Câmara e na disposição do governo em derrubar Maia. Os novos adversários no DEM também contribuíram.
O presidente do partido, ACM Neto, foi decisivo para o golpe final na candidatura de Baleia. Aproveitou-se dos equívocos de Maia para assumir a liderança dos desejos da bancada do DEM.
O ato final da Presidência de Maia foi melancólico: a ameaça não cumprida de abrir o processo de impeachment contra Bolsonaro.
Rodrigo Maia não acolheu nenhum pedido de impeachment. Seja de Michel Temer, seja de Jair Bolsonaro. São situações distintas, decerto, mas Maia ajudou a preservar uma estabilidade mui querida na nossa cultura política. O centrão de Lira cobrará outro preço para mantê-la – com ou sem Bolsonaro.

