O ataque do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), ao ministro Alexandre Padilha (Relações Institucionais) pouco tem a ver com a articulação do governo na manutenção da prisão do deputado Chiquinho Brazão, suspeito de ser um dos mandantes do assassinato da vereadora Marielle Franco e de Anderson Gomes.

O episódio foi o estopim de uma insatisfação de Lira com a atuação nos bastidores do Palácio do Planalto na eleição que definirá o próximo presidente da Câmara.

O voto e a orientação de Elmar Nascimento (União Brasil-BA) pela soltura de Chiquinho miravam a conquista de votos dos bolsonaristas na disputa. Como mostrou o Bastidor, Elmar ganhou pontos com os aliados do ex-presidente.

Elmar, no entanto, foi vetado pelo presidente Lula, que autorizou a articulação do governo a trabalhar por alternativas. Foi exaustivamente noticiada a preferência do Palácio do Planalto por Antônio Brito (PSD-BA), mas o nome defendido por ser mais viável é o de Marcos Pereira (Republicanos-SP). Pereira sumiu e não participou da discussão, nem votou no caso Brazão.

O movimento do governo por Pereira foi detectado há meses por Lira. O deputado, no entanto, quis usar a votação do caso Brazão para demonstrar força. Se a Câmara decidisse libertar Brazão, mesmo a despeito da opinião pública, Elmar aumentaria seu favoritismo. Não foi o que ocorreu.

O ataque direto a Padilha, apesar das desavenças públicas, não é um recado somente a ele, é a tentativa de Lira reforçar que seu candidato é Elmar e acabou.

A leitura otimista de aliados de Lula é que Lira já vive o ocaso da perda da presidência da Câmara. Nas articulações pela sucessão do deputado, o governo já negocia o poder sobre emendas a partir de 2025. Mas há cautela, pois Lira ainda tem potencial de atrapalhar – e muito – os planos do Palácio do Planalto.