Os irmãos Amarildo da Costa Oliveira e Oseney da Costa Oliveira confessaram à Polícia Federal ter matado o indigenista Bruno Pereira e o jornalista inglês Dom Philips, que viajava com ele pelo Vale do Javari, no Amazonas. Os dois estão desaparecidos desde o dia 5.

O motivo mais provável é a vingança por uma ação de Bruno Pereira no passado recente: ele liderou uma apreensão de peixes de Amarildo, fruto de pesca ilegal na reserva indígena. De acordo com a PF, a venda dos peixes faz parte do esquema de lavagem de dinheiro do narcotráfico que atua na região. A apreensão causou prejuízo a Amarildo e aos traficantes. 

Nos próximos meses, o Brasil deve sentir os efeitos colaterais do crime, que irão muito além de protestos no exterior nos últimos dias e declarações como a do primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, que se disse “muito preocupado” com Philips.

Um dos mais óbvios é uma reação no mercado aos produtos agrícolas brasileiros, por conta do desmatamento na Amazônia. Não será surpresa uma campanha para evitar a compra de alguns produtos brasileiros, que fazem concorrência aos de outros países, em especial europeus.   

O fato de a morte da dupla estar relacionada ao narcotráfico abre um novo e delicado flanco contra o Brasil. A presença de traficantes trabalhando ao lado e se beneficiando de garimpos clandestinos, pesca ilegal e desmatamento mostra que a política de Bolsonaro de reduzir fiscalizações na Amazônia abriu terreno para o crime organizado que envia drogas aos países ricos. Não se trata apenas de preservação do meio ambiente, mas de uma questão bem mais delicada e com maior força de lobby. 

Poucas horas antes da confissão dos irmãos em Atalaia do Norte (AM), o presidente Jair Bolsonaro insinuou que a culpa foi de Bruno e Philips por irem a uma região perigosa. O presidente criticou Philips. “Esse inglês, ele era malvisto na região. Porque ele fazia muita matéria contra garimpeiro, a questão ambiental… Então, aquela região lá, que é bastante isolada, muita gente não gostava dele. Ele tinha que ter mais do que redobrado a atenção para consigo próprio. E resolveu fazer uma excursão.”

Bruno Pereira era indigenista, estava licenciado da Funai e trabalhava na região há anos. Radicado no Brasil, Philips viajava com Bruno para fazer uma reportagem sobre as ameaças à terra indígena no Vale do Javari.