Desde o início da campanha a prefeito de São Paulo, a postura do coach e empresário Pablo Marçal, do PRTB, suscitou a volta da discussão sobre os formatos dos debates entre candidatos. Ao ignorar perguntas em suas respostas, provocar os adversários com ofensas pessoais, fazer gestos grosseiros, entre outros atos descabidos, Marçal colocou em dúvida a viabilidade dos programas.

A cadeirada aplicada em Marçal pelo candidato do PSDB, José Luiz Datena, no debate da TV Cultura, na noite de domingo (15), pode ter estabelecido um limite. Ao fazer o impensável em debates políticos, Marçal sofreu uma reação proporcional. Como disse o jornalista Hunter Thompson em seu clássico “Medo e delírio em las Vegas”, “when the going gets weird, the weird turn pro” – que, numa tradução livre, significa “quando as coisas ficam estranhas, o estranho se torna aceitável”.

Quando um candidato se comporta num debate como se estivesse em uma live de influencer, mente ao dizer que um adversário (Guilherme Boulos) cheira cocaína, que outro (Datena) cometeu assédio e que outra (Tabata Amaral) abandonou o pai doente, torna as coisas estranhas. Assim, um comportamento inusitado como uma cadeirada deve ser esperado.

O formato dos debates eleitorais se mostrou falho na campanha americana de 2016, quando Donald Trump não respondia nada, dizia mentiras em série e fazia ataques pessoais à adversária, Hillary Clinton, também baseados em mentiras. Nos poucos debates a que compareceu em 2018, Jair Bolsonaro aplicou a mesma técnica – e a repetiu em 2022.

Marçal alargou os limites do irrazoável, jogando a conversa a níveis baixos jamais vistos. Sua estratégia funciona porque os outros candidatos, inexperientes em vender cursos sobre como ficar rico, se comportam dentro dos limites do razoável. Quando um candidato não respeita limites do jogo, tem uma grande vantagem no campeonato de gerar atenção para si.

Datena, um apresentador de TV que também está longe de ser um político tradicional, perdeu a linha, num comportamento impensável para um candidato a qualquer cargo. Fez isso em reação a um comportamento impensável sustentado por Marçal durante mais de um mês de campanha. Foi a primeira vez que um candidato fez com Marçal o que ele fazia com seus adversários.

A política saiu do seu normal para tratar uma anormalidade.