Joseph R. Biden Jr. será o próximo presidente dos Estados Unidos, mas a euforia compreensível dos Democratas e daqueles que não suportavam mais Donald Trump pode escamotear o tamanho das encrencas estruturais da democracia americana – e, consequentemente, a imensa dificuldade de resolvê-las. Como dizem os americanos, não é uma eleição em que “the winner takes all”. Nesse caso, the winner terá uma missão aparentemente impossível.

  • Trump perdeu, mas por muito menos do que tantos esperavam. Quase metade dos americanos estão com ele e seu modo anarcopopulista de fazer política. O país segue dividido.
  • Essa divisão se reflete em Washington. Biden será o homem mais poderoso dos Estados Unidos. No entanto, os Republicanos, hoje dominados pelo trumpismo, provavelmente terão o comando do Senado, onde poderão montar uma trincheira eficiente para resistir à nova administração – mesmo que com uma maioria magra.
  • Trump e os mesmos Republicanos conseguiram estabelecer uma maioria conversadora na Suprema Corte. Biden, como político do establishment, certamente não embarcará numa aventura para tentar aumentar o número de vagas no tribunal.
  • O ambiente digital seguirá ruidoso e fragmentado. A não ser que as plataformas (Facebook, Google, Twitter) mudem profundamente seus modelos de moderação de conteúdo, o atual ecossistema de informação seguirá favorecendo o estrépito de Trump e figuras como ele. Esse ecossistema assegura a polarização política e social (não apenas nos Estados Unidos).
  • Biden não é uma figura transformadora, como Obama. É um político tradicional, com virtudes e limitações tradicionais. Não há qualquer indício de que ele tenha condições de “unir o país”, como alguns desejam ou fantasiam. Talvez nenhuma pessoa ou grupo tenha essa capacidade.

Ademais, é preciso aguardar o comportamento de Trump. Ele ainda será presidente até janeiro. Se mantiver a postura destrutiva para a democracia mas lucrativa para sua base eleitoral, pode causar estragos imprevisíveis, sobretudo em meio ao agravamento da pandemia do coronavírus.