Assim como aconteceu no ano passado, a cerimônia para lembrar a tentativa de golpe de estado em 8 de janeiro de 2023 foi esvaziada nesta quarta-feira. Os presidentes da Câmara, do Senado e do Supremo Tribunal Federal não compareceram, preferiram enviar representantes, e deixaram o presidente Lula sozinho.
Faltou também povo ao evento. Apesar da mobilização do PT e de organizações de esquerda, havia pouca gente na Praça dos Três Poderes para um ato em favor da democracia. A Polícia Militar esperava cerca de 1.400 pessoas. Não foi divulgada uma estimativa de quantas compareceram.
O evento teve a presença maciça de ministros, justamente os subordinados que Lula tem poder para obrigar a comparecer. Fora eles, estiveram no Palácio do Planalto quatro ministros do Supremo e poucos parlamentares.
Arthur Lira e Rodrigo Pacheco, assim como seus sucessores Hugo Motta e Davi Alcolumbre, não foram porque querem distância do 8 de Janeiro. Mesmo apoiados pelo governo e pelo PT, preferem não criticar publicamente a selvageria para não arrumar confusão com parlamentares bolsonaristas a três semanas da eleição ao comando da Câmara e do Senado. A desculpa das férias cai perfeitamente bem no caso.
O discurso do presidente Lula aproveitou o Globo de Ouro dado à atriz Fernanda Torres pela atuação no filme “Ainda estou aqui”, sobre a vida de Eunice Paiva, esposa do deputado Rubens Paiva, sequestrado torturado e morto pela ditadura militar em 1971, para fazer comparações com o que representa o 8 de janeiro.
“Hoje é dia de dizermos em alto e bom som: Ainda estamos aqui. Estamos aqui para dizer que estamos vivos, e que a democracia está viva, ao contrário do que planejavam os golpistas do 8 de janeiro de 2023”, disse Lula.
Em um momento de improviso, fora do texto, Lula fez uma desastrada comparação entre amantes e maridos e chamou o ministro Alexandre de Moraes, de “Xandão”. Lula ainda chamou de “aloprados” os militares que planejaram matá-lo em em 2022.
Lula ainda vez menção à presença dos três comandantes das Forças Armadas no evento. “Eu quero agradecer ao (ministro da Defesa, José) Múcio que trouxe os três comandantes das Forças Armadas para mostrar a esse país que é possível a gente construir as Forças Armadas com a proposta de defender a soberania nacional”, disse.
A cerimônia foi instituída no ano passado para lembrar o dia em que uma onda de manifestantes bolsonarista vandalizou os prédios da Praça dos Três Poderes, numa tentativa de golpe de estado.
Mas, assim como no ano passado, o esvaziamento da cerimônia passa a imagem que apenas Lula, que seria o maior prejudicado caso um golpe de estado tivesse dado certo, se importa com o fato de a democracia ter prevalecido em 8 de janeiro de 2023. Nem parlamentares, nem a população, demonstram se importar. No Brasil polarizado, a defesa da democracia é confundida com mera questão partidária.

