Nunca uma eleição presidencial foi tão escrutinada em detalhes como essa de 2022. Devido a ataques sistemáticos do presidente Jair Bolsonaro, a Justiça Eleitoral foi obrigada a expor o funcionamento das urnas eletrônicas, como é feita a transmissão dos votos, a segurança do equipamento, em que local é feita a apuração, entre outros aspectos. Isso não é bom para o país.
Desde a noite de segunda-feira, a campanha de Bolsonaro afirma que foi prejudicada na veiculação de propaganda política no Nordeste – apenas no Nordeste. Faltam evidências e sobra discurso. Nesta quarta, explora com teorias conspiratórias a exoneração de um servidor do Tribunal Superior Eleitoral que atuava no setor responsável por distribuir as propagadas.
Até Bolsonaro estar no páreo, nenhum entre dezenas de candidatos que disputaram a Presidência da República entre 1998 e 2022 questionou tais detalhes. Nenhum pôs em dúvida a veiculação de comerciais. Nenhum colocou em dúvida as urnas eletrônicas. Nenhum fez menção a acionar os militares – tão relacionados a eleições quanto médicos ou professores – para “fiscalizar” o processo eleitoral. Todos se preocuparam apenas em correr atrás de votos.
Bolsonaro é caso único. Há um ano coloca em dúvida o processo, ao mesmo tempo que instiga seus apoiadores contra ministros da Justiça Eleitoral e os mobiliza para o dia da eleição. Passa mais tempo questionando regras e procedimentos do que efetivamente jogando, buscando apoios e votos. Contrariou seus aliados políticos, que provaram a ele que o discurso contra urnas espanta votos. Não é desinformação de Bolsonaro, é estratégia.
Bolsonaro age como agiu seu modelo, Donald Trump, nos Estados Unidos em 2020. Na falta de urnas eletrônicas, Trump colocou em dúvida o voto por correio, uma tradição local, e o sabotou porque favorecia seu adversário. Também passou meses a alimentar seus partidários com mentiras sobre supostas fragilidades do sistema de votação e a espalhar que a eleição não era limpa – não por acaso, a mesma acusação feita por Bolsonaro. No final das contas, instigou uma invasão do Capitólio por milícias.
O questionamento de tantos detalhes da eleição é um trabalho sistemático de Bolsonaro para colocar em dúvida a lisura da eleição. É a formação de um ambiente propício para se recusar a aceitar uma eventual derrota. Bolsonaro não está preocupado com eleições limpas, mas em vencer de qualquer forma.
Os efeitos de sua conduta de atacar a credibilidade da Justiça Eleitoral são maiores que uma eleição, constituem uma sabotagem aos instrumentos de participação do cidadão – em essência, à própria democracia. O prejuízo para o país é enorme. Bolsonaro é o primeiro presidente a não se importar com isso.

