O presidente Jair Bolsonaro fez um curto discurso que vale tanto pelas lacunas quanto pelas palavras. No texto, ele aprovou as manifestações nas estradas – só faz a ressalva para que sejam “pacíficas” – e disse que são consequência do processo eleitoral. Na parte do silêncio ficou a derrota para Lula.

O presidente leu o curto discurso no Palácio da Alvorada há pouco. Saiu apressadamente ao terminar, sem responder a nenhuma pergunta. Em essência, Bolsonaro quis dizer que sua derrota foi produto de uma fraude e que muita gente pensa o mesmo e está a seu lado. É uma forma de ameaça.

Bolsonaro inverteu o jogo. Em vez de fazer um discurso de reconhecimento da derrota, fez um discurso para demonstrar força. Vinculou os protestos nas estradas a uma revolta pelo resultado da eleição, deixando subentendida sua teoria de fraude. Procurou justificar os atos criminosos, em vez de condená-los, para manter os manifestantes a seu lado. Bolsonaro quer demonstrar que comanda muita gente.

Na prática, passadas quase 48 horas do resultado da eleição, Bolsonaro ainda não reconheceu a derrota para Lula, nem o cumprimentou. Quem esperava que fizesse isso não compreende o mundo do presidente. Ele pouco tem a ver com a realidade ou obrigações institucionais.

Para não ter de mencionar a derrota, Bolsonaro delegou ao ministro Ciro Nogueira a tarefa de falar sobre o processo de transição para o governo Lula. Preferiu não ceder nem neste aspecto. Todos sabem que a colaboração será mínima e o processo áspero. Bolsonaro quer revanche.