Estados e municípios seguem com dificuldades para ampliar a vacinação de crianças e adolescentes. O problema, segundo especialistas e gestores, não é a falta de imunizantes, mas a falta de coordenação entre os entes federativos. Questões como as fake news propagadas por grupos antivacina também preocupam especialistas. 

O Ministério da Saúde diz que já repassou aos estados 20 milhões de doses da vacina da Pfizer. Essa quantidade é suficiente para aplicar a primeira dose em todas as crianças de 5 a 11 anos de idade. Mas na ponta, nas cidades, há demora para o recebimento e distribuição das doses.

Segundo a pasta, a maioria das doses já está nas mãos de governadores e prefeitos. Ainda assim, há cidades em que a vacinação foi suspensa por falta de doses.

É o caso do Rio de Janeiro, que na última semana interrompeu a campanha de vacinação pela completa falta de vacinas que possam atender a essa faixa etária. A capital fluminense só retomou a imunização nesta segunda-feira, 21, depois de receber novas doses.

Dados do LocalizaSus, plataforma de acompanhamento das ações do Ministério da Saúde, mostram que apenas 5,2 milhões de crianças de 5 a 11 anos foram imunizadas até esta segunda-feira, pouco mais de um quarto do público-alvo. Vale lembrar que quem tem acima de 6 anos pode receber também as doses da Coronavac. A plataforma não distingue qual imunizante foi aplicado nessa faixa etária.

O governador do Piauí, Wellington Dias (PT), defende que seja realizada uma busca ativa nas casas, para ampliar a vacinação. O piauiense lidera o Fórum Nacional de Governadores. 

“A partir da base de dados de cada equipe do Programa saúde da família, se vai de casa em casa e também com equipes móveis de vacinação”, diz.

Bastidor também procurou os conselhos de secretários de saúde dos estados e municípios e a Frente Nacional dos Prefeitos e perguntou quais as estratégias estão em desenvolvimento nas cidades para ampliar a cobertura vacinal. Nenhuma entidade respondeu aos questionamentos. 

Já o Ministério da Saúde reafirmou em nota a compra das 20 milhões de doses e disse que está investindo em ações de incentivo à vacinação infantil “incluindo a veiculação de campanha publicitária na TV, rádio, mídia exterior e internet”. Segundo a pasta, estados e municípios também devem realizar campanhas regionais, direcionadas aos públicos que atendem. 

Falta campanha nacional

O médico sanitarista Cláudio Maierovitch, ex-presidente da Anvisa e atual vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), avalia que o silêncio dos estados e municípios é mais um dos sinais de que o SUS está falhando por completo. Como o governo federal não se articula, ele acredita que os demais entes se sentem envergonhados e preferem manter o silêncio.

Ele acredita que o trabalho dos estados e municípios está sendo feito, mas falta coordenação do Ministério da Saúde para articular ações que possam ampliar a cobertura vacinal. Por isso, os números seguem baixos.

Fake News colocam crianças em risco

A Fiocruz diz que a disseminação de notícias falsas sobre a imunização infantil está atrapalhando a campanha de vacinação infantil. Um levantamento da instituição, divulgado na última quinta-feira, aponta que a baixa procura pode resultar em novas infecções nesse período de volta às aulas.

A entidade apela para que o poder público invista em campanhas de divulgação sobre os benefícios da vacinação infantil, como forma de combater a desinformação. 

“Agências de saúde de vários países continuam afirmando que as vacinas são seguras e que o número de eventos relatados é pequeno frente aos milhões de doses que já foram aplicadas nessa faixa etária. Desse modo, os benefícios ultrapassam os riscos e os pais e responsáveis devem ser apoiados e incentivados a levar seus filhos para serem imunizados”, pontua a Fiocruz.

Wellington Dias relembra que a campanha antivacina foi muito forte em relação às crianças, complicando o cenário de controle do coronavírus. “A campanha antivacina para crianças, mais forte que para adultos, prejudicou a vacinação para esta faixa acima de 5 anos e até 12 anos especialmente”, diz.

Das 27 unidades da federação, apenas 7 possuem cobertura vacinal acima da média nacional: Rio Grande do Norte, Sergipe, Espírito Santo, São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul e Distrito Federal. Na outra ponta, o Amapá vacinou apenas 5,3% das crianças, sendo que na capital, Macapá, a vacina chegou a apenas 1,6% do público-alvo. Todos os estados do Norte e quase todos do Nordeste estão abaixo da média.

Outras nove capitais também estão abaixo da média nacional: Boa Vista, Rio Branco, Porto Velho, Teresina, João Pessoa, Recife, Belo Horizonte, Campo Grande e Cuiabá.

Parte do problema também está associada ao baixo índice de desenvolvimento humano. Segundo a Fiocruz, locais mais pobres estão com mais dificuldade de ampliar a vacinação, mostrando a fragilidade da população mais carente do país.

“A repercussão associada a este fenômeno é simples: quando crianças não são vacinadas, cria-se um grupo suscetível a contrair a Covid-19. Num cenário em que apenas este grupo não está imunizado, ele se torna particularmente vulnerável à infecção e à disseminação do vírus, inclusive entre outros grupos etários. Os dados de internação mostram que o número de crianças hospitalizadas aumentou, não apenas em números absolutos, mas notadamente em comparação às demais faixas etárias”, afirma a Fiocruz.