Pela primeira vez em sua história, os Estados Unidos declararam guerra diplomática contra a cúpula do Judiciário de uma democracia aliada. A decisão de Marco Rubio, secretário de Estado de Donald Trump, de cancelar os vistos de Alexandre de Moraes, seus familiares e outros sete ministros do Supremo Tribunal Federal rompe com 80 anos de precedentes. O que antes era reservado para juízes de ditaduras agora atinge magistrados brasileiros nomeados democraticamente pelo presidente e aprovados pelo Senado. Um precedente que pode redefinir o conceito de soberania judicial no século XXI.

A coordenação temporal é reveladora: horas depois de Moraes determinar o uso de tornozeleira eletrônica pelo ex-presidente, o Departamento de Estado anunciou as restrições. Um sinal claro de acompanhamento em tempo real dos processos do STF.

Foi uma ação orquestrada. Nove dias antes, Donald Trump impôs tarifas de 50% sobre produtos brasileiros. Simultaneamente, Eduardo Bolsonaro se instalou em Washington para coordenar um lobby no Capitólio, trabalhando diretamente com congressistas para pressionar o governo americano.

A ofensiva mira economia, diplomacia e opinião pública – uma estratégia de pressão multidimensional sem precedentes contra uma democracia aliada.

O padrão histórico quebrado

Historicamente, os Estados Unidos aplicaram medidas similares apenas a magistrados de regimes autoritários. Os iranianos Abolghassem Salavati e Mohammad Moghisseh, sancionados em 2019, eram literalmente “juízes da morte”: enviavam dissidentes às execuções. A russa Olesya Mendeleeva, punida em 2024, condenara um vereador moscovita por chamar a invasão da Ucrânia de “guerra”.

Em casos extremos, Washington atingiu autoridades de regimes híbridos – como seis funcionários húngaros que perderam vistos em 2014 por “erosão” do Estado de Direito. Mas, até agora, nenhuma democracia plena vira quase todo o topo de sua Suprema Corte enquadrado pelos americanos.

O Judiciário brasileiro tem imperfeições reconhecidas. Alguns ministros cometem erros processuais e a corte altera entendimentos com frequência, às vezes por interpretações políticas questionáveis. Mas há uma diferença fundamental entre ter problemas institucionais e deixar de ser uma democracia. Mesmo quem considera o julgamento de Jair Bolsonaro no Supremo uma “caça às bruxas”, como disse Trump, dificilmente pode sustentar que o Brasil se tornou uma ditadura. Uma ditadura imaginária que seria derrubada, segundo as provas coletadas pela Polícia Federal, para ceder lugar a uma… ditadura militar.

As novas armas políticas

A medida adotada por Rubio nasce do parágrafo 212(a)(3)(C) do Immigration and Nationality Act, que dá ao Departamento de Estado poder discricionário para negar ou cancelar vistos quando a entrada do estrangeiro “trouxer graves consequências para a política externa”. A Suprema Corte americana chancelou recentemente esse poder.

Trata-se de punição pessoal: impede viagem mas não congela bens nem proíbe transações. As sanções econômicas tradicionais – administradas pelo Departamento do Tesouro – bloqueiam ativos sob jurisdição americana, vedam negócios com cidadãos e empresas americanas e podem atingir bancos correspondentes mundo afora.

Em resumo: enquanto o Tesouro corta o fluxo financeiro, o Departamento de Estado fecha a porta de entrada.

Uma possível solução

A própria Justiça americana pode oferecer o caminho para contestar essas medidas. O precedente jurídico nasceu de caso recente contra o Tribunal Penal Internacional.

Em fevereiro de 2025, Trump assinou ordem executiva reeditando sanções econômicas contra funcionários do TPI. Dois defensores de direitos humanos processaram o governo, alegando violação da Primeira Emenda. Em 19 de julho, a juíza federal Nancy Torresen concedeu liminar suspendendo a ordem, afirmando que ela “restringe muito mais discurso do que o necessário”.

A decisão – primeiro revés judicial a sanções por suposta censura – abre caminho lógico para que o governo brasileiro argumente o mesmo: atingir magistrados estrangeiros por atos jurisdicionais é punição desproporcional, que fere liberdades civis de terceiros nos Estados Unidos.

O debate central é sobre soberania nacional. Ao equiparar decisões de um tribunal constitucional brasileiro às práticas de regimes autoritários, Washington ignora que Moraes e seus pares foram nomeados pelo presidente e aprovados pelo Senado, dentro de arcabouço democrático consolidado. Cabe ao mesmo Senado, reitere-se, fiscalizar os ministros do Supremo e processá-los por crimes de responsabilidade.

O sistema brasileiro pode ter imperfeições, mas funciona dentro de marcos constitucionais. Se esse precedente vingar, qualquer potência poderá usar política migratória para pressionar cortes estrangeiras.

Imagine a China cancelando vistos de juízes americanos por decisões sobre Taiwan, ou a Rússia punindo magistrados europeus por casos envolvendo oligarcas. O precedente brasileiro legitimaria essas retaliações.

O experimento global

Os brasileiros assistem a um experimento geopolítico em tempo real: a tentativa de redefinir as regras internacionais por meio da pressão sobre sistemas judiciais democráticos.

Se prosperar, este precedente transformará a política de vistos de ferramenta administrativa em instrumento de coerção política contra democracias aliadas. A resposta do Brasil e de outros países democráticos, portanto, pode determinar se a soberania judicial sobrevive como conceito no século XXI – ou se ela se tornará refém das disputas geopolíticas das superpotências.

O precedente está sendo criado agora. Suas consequências se estenderão muito além da atual crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos.