A guerra na Ucrânia chega ao 20º dia sem perspectiva de um fim para o sofrimento de milhões de civis, que foram obrigados a deixar os locais onde moram e buscar abrigo longe de casa. O Bastidor preparou um resumo da situação atual no campo de batalha e das sanções políticas e econômicas impostas nesse período.

Tragédia humanitária

De acordo com a ONU, mais de 10% da população ucraniana precisou se deslocar para outros lugares, para fugir das áreas de conflito mais intenso. Desse total, quase três milhões de pessoas se sentiram obrigadas a deixar o território ucraniano desde o início dos ataques do exército russo. É o maior êxodo interno na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.

Segundo a ONU, a maior parte buscou abrigo na Polônia. O país vizinho já sente o impacto do aumento populacional e se preocupa com questões como desemprego e acolhimento aos refugiados.

Há relatos de que muitos ucranianos que ficaram no país sofrem com fome, frio e sede, já que o exército russo destruiu boa parte da infraestrutura de serviços básicos que atendia a população.

A Ucrânia também afirma que o exército russo tem atacado civis deliberadamente. O Kremlin nega e diz que só atacou alvos militares ou ligados a milícias locais. Os números de baixas civis e militares em ambos os lados ainda são incertos, com dados desencontrados.

Refugiados enfrentam frio e longas filas para tentar sair do país
Refugiados enfrentam frio e longas filas para tentar sair do país Foto: Reprodução Telegram

Economia em risco

Estados Unidos, Canadá, Reino Unido e União Europeia formam apenas parte do grupo que impôs duras sanções econômicas à Rússia. A mais dura delas foi a retirada de sete dos principais bancos russos do sistema SWIFT, o mais usado no mundo para transferências interbancárias.

Também houve o bloqueio de bens de oligarcas russos, incluindo o presidente Vladimir Putin, ministros, assessores próximos e parlamentares do país. Um dos empresários atingidos é o bilionário Roman Abramovich, dono do clube de futebol inglês Chelsea.

Além das sanções ao alto escalão russo, o governo dos Estados Unidos anunciou o fim das importações de petróleo, gás natural e carvão da Rússia. A medida é simbólica, já que há poucas trocas comerciais entre os dois países referentes aos hidrocarbonetos, mas mostra que o governo de Joe Biden está se preparando para posturas mais incisivas contra Putin. Também foi proibida a importação de itens como vodca e diamantes produzidos na Rússia.

As sanções econômicas ocidentais geraram uma série de suspensões das atividades de empresas estrangeiras na Rússia. McDonald’s, Pizza Hut, Unilever Prada e Swarowski são algumas das marcas que deixaram de operar no país.

Em contrapartida, a Rússia também determinou sanções a empresas estrangeiras e aumentou a proximidade econômica e política com outros países que não se opuseram diretamente aos ataques, como China e Índia. O objetivo é encontrar saídas para conter a crise econômica interna provocada com as sanções.

O congresso da Rússia também começou a discutir a possibilidade de estatizar empresas estrangeiras que deixem de operar no país.

Censura pesada

Com o início da guerra, Vladimir Putin começou a enfrentar forte oposição interna no país. Para tentar controlar os ânimos da população, passou a prender milhares de pessoas a cada protesto realizado.

Outra medida foi aplicar censura aos meios de comunicação. Jornalistas que utilizem as palavras “guerra” ou “invasão” ao se referirem aos acontecimentos na Ucrânia estão sujeitos a penas que podem chegar a até 15 anos de prisão.

Os veículos independentes que continuaram funcionando tentaram driblar a lei, usando os termos considerados adequados pelo governo ou evitando as expressões proibidas. Jornalistas e veículos de outros países deixaram de trabalhar na Rússia, para evitar eventuais sanções ou prisões.

As medidas duras também atingiram redes sociais. O governo de Putin bloqueou o acesso às duas principais plataformas da Meta, o Instagram e o Facebook, acusando a empresa de disseminar mensagens de ódio contra o povo e o exército da Rússia. Outras redes sociais, como o chinês TikTok, também pararam de operar na Rússia.

Russos controlam a área da usina nuclear de Chernobyl
Russos controlam a área da usina nuclear de Chernobyl Foto: Maxar

Risco nuclear

O exército da Rússia passou a controlar a maior usina nuclear da Europa. O complexo de Zaporizhzhia foi alvo de intensos ataques, que causaram incêndio em um prédio que servia como base de treinamento dos funcionários. Imagens de câmeras de segurança mostraram ainda que houve bombardeio direcionado a pelo menos um dos reatores nucleares. Apesar do risco, não houve vazamento radioativo na estrutura.

Os russos também controlam a Zona de Exclusão, área onde fica a usina de Chernobyl, palco do maior acidente nuclear da história. Embora a usina esteja desativada, a área ainda guarda quantidades consideráveis de lixo nuclear. 

Nos dois casos, o governo da Ucrânia afirma que os técnicos que atuam nas usinas estão trabalhando sem revezamento de equipes, sob condições extremas, sem acesso à comida e água. Já a Rússia diz que as unidades estão sendo gerenciadas com o auxílio de equipes russas. 

A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) diz que está acompanhando a situação, mas não conseguiu ainda avaliar as condições diretamente nas usinas de forma independente.

Esporte barrado

O dono do Chelsea não foi a única pessoa ligada aos esportes que sofreu com as sanções ao governo russo. Os atletas russos de Belarus – país que ajudou Putin na organização do ataque – foram impedidos de participar das Paraolimpíadas de Inverno, realizadas em Pequim. 

Os organizadores da Fórmula 1 cancelaram o contrato com o comitê russo que promove as corridas na Rússia. Neste ano, a categoria teria uma etapa no circuito de Sochi. A partir de 2023, as corridas seriam em São Petesburgo. 

Ainda na Fórmula 1, o piloto russo Nikita Mazepin teve o contrato com a equipe americana, Hass, anulado. O contrato do time com o pai dele, que era o principal patrocinador, também foi anulado. A equipe contratou o dinamarquês Kevin Magnussen para ocupar a vaga deixada por Mazepin.

A Federação Internacional de Judô decidiu retirar o título de presidente honorário da entidade do presidente Vladimir Putin. O líder russo é graduado com faixa vermelha e branca, no oitavo dan, uma das mais altas que é possível atingir no esporte. 

Bolsonaro chegou a dizer que não enviaria ninguém para buscar brasileiros refugiados, mas voltou atrás
Bolsonaro chegou a dizer que não enviaria ninguém para buscar brasileiros refugiados, mas voltou atrás Foto: Pedro Ladeira/Folhapress

E o Brasil?

Desde a visita de Jair Bolsonaro à Rússia, uma semana antes do início dos ataques, a atuação do país tem sido errática. O embaixador brasileiro na Ucrânia chegou a dizer que não acreditava na escalada militar na região.

Com o início dos ataques, Bolsonaro declarou que não seria possível enviar uma equipe para resgatar brasileiros refugiados da guerra. Depois, voltou atrás e mandou um cargueiro da Força Aérea até Varsóvia, na Polônia. O avião voltou com brasileiros, ucranianos e poloneses, que tentarão seguir as vidas por aqui, pelo menos até o fim do conflito.

O Brasil corre para tentar se desviar dos efeitos econômicos da guerra. O principal deve ser a falta de fertilizantes, já que boa parte desse material usado nas lavouras brasileiras é importada da Rússia.

Outro problema que os brasileiros já começaram a sentir é aumento nos preços dos combustíveis. Com a alta no valor dos barris de petróleo, o preço do litro da gasolina passou de R$ 10 em várias cidades do Norte. No restante do país, já é impossível achar o combustível a menos de R$ 7.

Esses problemas devem pressionar ainda mais a inflação. No último boletim Focus, os economistas consultados pelo Banco Central já projetam que o IPCA deve terminar o ano com alta de 6,45%.