O risco de um novo desastre nuclear na Ucrânia, com a continuidade da ocupação russa no território, aumenta aceleradamente. Nos últimos dois dias, o controle de operações da usina de Chernobyl funciona com eletricidade fornecida por geradores movidos a diesel.

A falta de eletricidade foi provocada pela destruição das linhas que levam energia até o complexo. Embora os reatores estejam desativados há vários anos, o local segue monitorado diariamente por técnicos, que controlam o manejo dos rejeitos radioativos e tentam evitar que um novo acidente aconteça.

Esse problema também prejudica o acompanhamento externo da situação. Chernobyl foi uma das primeiras áreas tomadas pelo exército da Rússia quando a guerra começou. Apesar do controle estrangeiro, o órgão regulador ucraniano podia acompanhar as atividades, recebendo relatórios por e-mail. Com a queda na energia, as equipes pararam de enviar os dados.

Trabalho sem fim

O governo da Ucrânia afirma que, desde o início da invasão, os trabalhadores que acompanham as atividades em Chernobyl foram forçados a trabalhar sem revezamento. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) afirma que essa situação prejudica a tomada de decisões por parte dos técnicos. A legislação internacional sobre energia nuclear proíbe o trabalho dessas pessoas sob jornadas extenuantes, nem submetidos a pressões externas.

O Kremlin rebate as acusações e afirma que técnicos russos foram deslocados a Chernobyl para ajudar os ucranianos. No entanto, a situação real da área é desconhecida. Sabe-se apenas, segundo relatos da AIEA, que os níveis de radiação seguem sob níveis normais de segurança.

Ataques em Zaporizhzhia

Outra instalação que passou perto de um grave acidente foi a usina nuclear de Zaporizhzhia, a maior da Europa. No dia 3 de março, o entorno do local foi alvo de intensos bombardeios. Um prédio usado como base de treinamento de funcionários chegou a ser incendiado.

Uma reportagem da NPR, emissora pública dos Estados Unidos, mostra que os bombardeios passaram perto da área onde ficam os reatores nucleares de Zaporizhzhia. A rádio se baseou nas imagens de câmeras de segurança que mostram as tropas russas avançando e conquistando o território na área da usina.

Nas imagens é possível ver militares russos atirando deliberadamente em áreas próximas aos reatores 1 e 2 da usina. O local possui 6 reatores. 

A Rússia afirma que os ataques foram provocados por “sabotadores ucranianos”, mas as imagens da NPR colocam em dúvida essa narrativa.

Tudo está sob controle, diz AIEA

A AIEA reconhece que tem dificuldades para acompanhar de perto a situação em cada uma das usinas nucleares da Ucrânia, mas afirma que oito dos 15 reatores em disponíveis no país operam normalmente, sem indícios de vazamentos radioativos. Nesta sexta-feira, o diretor da entidade teve reuniões com os ministros de Relações Exteriores da Ucrânia e da Rússia para tratar sobre o tema.

Especialistas ouvidos pela NPR afirmam que os níveis de segurança das usinas atuais são muito superiores aos de Chernobyl, mas isso não garante que essas áreas sejam totalmente imunes a ataques ou outros desastres naturais.

Um exemplo é o que aconteceu em Fukushima, no Japão, quando um tsunami causou o derretimento do núcleo de um reator. O vazamento radioativo em 2011 obrigou a evacuação de 100 mil pessoas. Muitas delas, até hoje, ainda não voltaram ao local.

Brasil acompanha situação

O Conselho Nacional de Energia Nuclear (CNEN) recebe diariamente os relatórios da AIEA sobre o funcionamento das usinas na Ucrânia. A autarquia é responsável por informar as autoridades internacionais sobre a segurança dos reatores brasileiros, em Angra dos Reis, no litoral do Rio de Janeiro.

Também cabe ao CNEN a fiscalização de outras instalações que utilizem tecnologias radioativas, como laboratórios de diagnósticos médicos, centros de pesquisa, entre outros.

O CNEN explica que a agência internacional recebe diariamente informações sobre a situação nas usinas em todo o mundo. Os boletins sobre a guerra na Ucrânia divulgados quase diariamente pela AIEA são traduzidos para o português e disponibilizados no site da autarquia.

Segundo a entidade, “a AIEA é um fórum mundial intergovernamental, com 173 países membros, voltado para cooperação técnica e desenvolvimento científico no campo da tecnologia nuclear, focado na segurança, proteção física e nos usos pacíficos dessa energia”.