Um relatório da Unesco divulgado hoje aponta que pelo menos 400 jornalistas foram mortos enquanto trabalhavam em todo o mundo, de 2016 a 2021. O levantamento faz parte de uma análise global sobre o cenário do jornalismo e o Brasil aparece em uma posição vergonhosa.
Das 400 mortes registradas pelo estudo, 14 aconteceram no Brasil. Isso coloca o país como o único lusófono na lista das 10 nações com mais casos de assassinatos de profissionais de imprensa.
Leia a íntegra do estudo.
Apesar do número de mortes, o Brasil se destacou positivamente na criação de mecanismos que ajudam na segurança e na proteção de jornalistas. O mesmo aconteceu com outros vizinhos, como Colômbia, Equador e Paraguai.
As mortes de jornalistas estão intimamente ligadas à impunidade. No período da análise, 87% dos casos ainda não foram concluídos judicialmente, ou seja, os culpados permanecem sem pagar pelos crimes que cometeram.
Desafios da profissão
A Unesco mostra que, nos últimos anos a receita publicitária dos meios de comunicação tradicionais caiu drasticamente. A maior parte das verbas foi usada para investimentos em propagandas na internet, sendo o Google e o Facebook os principais atores nesse cenário.
Em 2010, as empresas de internet recebiam cerca de 17% de todo o faturamento publicitário mundial. Já a televisão abocanhava quase 40% do mercado, enquanto os jornais impressos recebiam 21%.
Apenas 11 anos depois, a internet passou a receber 54% de toda a publicidade, fazendo a receita dos jornais impressos acumularem apenas 5% das verbas publicitárias. O problema foi sentido na circulação de publicações em todo o mundo, que vem caindo ano após ano.
A pandemia piorou ainda o cenário econômico dos meios de comunicação nos últimos dois anos. Uma pesquisa elencada no estudo, feita com 1,4 mil jornalistas, mostrou que 65% deles se sentem menos seguros e pelo menos 21% tiveram cortes nos salários.
Leis restritivas
Na última semana, a Rússia aprovou uma lei que prevê até 15 anos de prisão para jornalistas que utilizarem os termos “guerra” e “invasão” para se referirem às ações militares do país na Ucrânia. Embora pareça um exagero, do ponto de vista global, essa foi apenas mais uma medida para restringir o trabalho dos jornalistas.
A pesquisa mostra que pelo menos 160 países possuem alguma lei que criminaliza a prática de difamação, cujos objetivos podem ser usados também para punir jornalistas que noticiem fatos que atentem contra autoridades.
De 2016 para cá, foram aprovadas pelo mundo ao menos 57 leis e regulamentos, em 44 países, com linguagem excessivamente vaga ou punições desproporcionais – a exemplo da nova lei russa – que colocam em risco a liberdade de imprensa.
Em 2019, o mundo acompanhou um recorde de ações judiciais e governamentais que bloquearam o pleno acesso à internet aos cidadãos. Foram 213 incidentes em todo o planeta. Entre as ações, houve a restrição de acesso ou o retardamento proposital do sinal, para desencorajar o uso da rede. Pelo menos 85% da população mundial afirmam ter experimentado um declínio na liberdade de imprensa onde vivem.
Violência contra as mulheres
A profissão de jornalista pode ser ainda mais perigosa para mulheres, conforme o estudo. Uma pesquisa com 625 profissionais do sexo feminino mostrou que 73% delas haviam experimentado algum tipo de violência online. Outros 20% afirmaram que sofreram alguma violência fora das redes em função de algo que havia sido publicado na internet sobre elas.
A paridade de gênero nos meios de comunicação também foi abordada. Num panorama global, serão precisos 67 anos até que as redações garantam a igualdade de gênero, considerando o ritmo atual.
Pluralismo e fake News
O uso maior das redes sociais nos últimos anos ampliou o espaço para que as notícias falsas se disseminassem em uma velocidade cada vez maior. Com a pandemia, o cenário piorou consideravelmente. No mês de setembro de 2020, os pesquisadores identificaram ao menos 1 milhão de publicações falsas no Twitter em relação à covid-19.
A Meta informou que desde o início da pandemia até o mês de agosto de 2021, removeu mais de 20 milhões de publicações falsas do Facebook e do Instagram. Boa parte desses conteúdos, além da desinformação, traziam também conteúdos de mensagens e discursos de ódio.
Financiamento aos meios de comunicação
Para garantir o pluralismo e a informação de qualidade, a Unesco defende que os governos invistam para garantir a liberdade de imprensa. “Sem literacia mediática e informativa e sem a transparência da Internet, a humanidade pode ser desviada da necessidade de enfrentar os problemas reais do desenvolvimento sustentável e da garantia dos direitos humanos de forma mais abrangente”, diz a entidade.
Entre as medidas que podem ser adotadas a Unesco sugere comitês de auto-regulação por parte dos produtores de notícias, novas regulamentações para as plataformas e subsídios estatais a veículos fiáveis.

