O ex-presidente Lula exibiu na entrevista ao Jornal Nacional, nesta quinta-feira, um tipo de atuação que os brasileiros não viam há algum tempo. Respondeu às perguntas da maneira que quis, deu voltas para fugir de situações capciosas, chamou os entrevistadores pelo nome, como se estivesse numa conversa amistosa com eles e a câmera. Carismático, Lula fez de uma dura sabatina, uma peça de campanha eleitoral.
Em vez da tensão devido à raiva que já manifestou contra a imprensa e a TV Globo pela cobertura da Operação Lava Jato e de sua prisão, Lula permaneceu relaxado durante os 40 minutos de entrevista. Driblou os questionamentos sobre corrupção em seu governo e as roubalheiras descobertas pela Lava Jato citando antigas medidas. Repetiu fantasias como a que a operação destruiu empregos e afundou a economia. Fez até um discurso em favor do combate à corrupção.
Lula tem 37% de rejeição, de acordo com a mais recente pesquisa do Datafolha. Bolsonaristas não se converterão com o que ouviram, mas Lula jogou para conquistar eleitores. Citou uma dúzia de vezes seu vice, Geraldo Alckmin, que passou a vida toda como seu adversário no PSDB. Elogiou o PSDB, a antítese do PT por duas décadas, ao dizer que tinham uma concorrência civilizada. Principalmente, Lula falou contra a raiva, que é identificada com Jair Bolsonaro.
Avançou até em eleitores de Ciro Gomes. Ao final da entrevista, prometeu negociar as dívidas de pessoas carentes, que não têm dinheiro para despesas básicas, uma ideia de Ciro de 2018, repetida nesta campanha. Lula sabe que é a primeira escolha dos eleitores de Ciro no segundo turno e tenta conquistá-los pelo voto útil.
Lula cometeu um deslize quando entrou mais fundo na política. Ao falar que Bolsonaro é “o bobo da corte” quando abordou o poder do Congresso e o orçamento secreto, emitiu um sinal ruim para o presidente da Câmara, Artur Lira, e o Centrão, dois adversários poderosos, que podem vir a ser aliados. Apesar do discurso, Lula demonstrou não saber como fazer o Congresso abdicar de poder.
Como faz desde o início da campanha, Lula usou seu passado para vender esperança para o futuro. Há um contingente enorme de eleitores que foram beneficiados por ele e que apostam em sua volta. Mas Lula mira também o grande volume de jovens que não conheceram seu governo e aqueles que nunca gostaram do PT. Experiente, em vez de ficar na defensiva, usou o JN para buscar esses eleitores.

