Início de campanha eleitoral não é momento de inovar. É hora de colocar o candidato em um ambiente favorável e confortável, buscar situações simbólicas, capazes de lembrar ao eleitor quem ele é. Isso explica a forma como Jair Bolsonaro e Lula começaram suas campanhas nesta terça-feira, o primeiro dos 47 dias até a eleição. 

Entre três possibilidades, Bolsonaro optou por um evento em Juiz de Fora, Minas Gerais. Por que não na Barra da Tijuca? Por que não num clube de tiro? Porque foi em Juiz de Fora que Bolsonaro sofreu um atentado a faca em 2018. É o local que o coloca no papel de vítima, o episódio mais marcante de sua campanha vitoriosa. Serve a seu estilo de discursar sobre mitos e medos.

Nesta terça, Bolsonaro discursou em cima de um palanque, de mãos dadas com a mulher, Michelle Bolsonaro. Falou contra a esquerda, o socialismo e se colocou em uma missão religiosa. Claramente se concentrou em cativar mulheres (fatia do eleitorado onde está em desvantagem) e em agradar aos evangélicos (fatia do eleitorado em que leva vantagem).

O ex-presidente Lula falou de cima de um carro de som na porta da fábrica da Volkswagen, em São Bernardo do Campo, cercado de metalúrgicos. Desnecessário explicar, dada sua história. Lula fica tão à vontade, e o público é tão a seu favor, que não tem como algo sair errado.

Lula falou sobre a volta da pobreza, citou dados sobre desemprego e atacou a postura de Bolsonaro na pandemia. Repetiu um ataque que deverá ser um mantra da campanha: que Bolsonaro nunca se importou com pobres e só aumentou o Auxílio Emergencial para ganhar a eleição; como sempre, pediu aos eleitores que peguem o dinheiro e não votem no presidente, a quem chamou de “possuído”.

No primeiro dia, Bolsonaro falou mais sobre medo do pior e Lula sobre esperança do melhor. É o estilo de cada um. Não que isso vá prevalecer. Campanhas eleitorais são planejadas, mas acabam direcionadas pelo acaso, por imprevistos. Por isso são interessantes e merecem ser seguidas de perto.