Sobra espuma no movimento desorganizado de partidos que dizem cogitar o impeachment de Jair Bolsonaro. Políticos como Paulinho da Força (Solidariedade) e Gilberto Kassab (PSD) disseram que tentarão articular o apoio de suas legendas ao afastamento do presidente. Outros, como PSDB e MDB, prometem seguir no mesmo rumo.
O que pode parecer, à primeira vista, uma articulação ampla para apear Bolsonaro do Planalto revela-se, num exame mais atento, mera estratégia para marcar posição – um modo de aliviar a pressão dos setores que pedem o impeachment.
Não há condições políticas ou disposição no PSDB e MDB, por exemplo, para que as siglas unam-se a fim de apoiar o impeachment. As divisões internas são profundas e as preocupações majoritárias estão na formação de palanques estaduais e municipais.
Paulinho segue próximo de Rodrigo Maia, mesmo após ambos perderem a recondução à Presidência da Câmara. Aproximou-se de Lula. Age para desgastar Bolsonaro. O Solidariedade não fechará questão para apoiar ações contra o presidente.
Kassab, por sua vez, tem cálculos mais abrangentes. Atua para afastar definitivamente Rodrigo Pacheco de Bolsonaro. Por um lado, espera que o presidente do Senado, prestes a se filiar ao PSD, consiga se viabilizar como pré-candidato à Presidência. Caso o plano Pacheco não dê certo, Kassab estará bem posicionado para negociar seu apoio a Lula.
Esses atores políticos, entre outros, sabem que Arthur Lira não acolherá um pedido de impeachment de Bolsonaro. Não nas condições atuais – mesmo com os atos de hoje, 7 de setembro. A não ser que assome bruscamente em Brasília uma pressão popular e política para derrubar Bolsonaro, uma pressão que se torne irresistível, Lira seguirá dando de ombros aos (poucos) apelos pela saída do presidente.
Não há sequer um pedido de impeachment pluripartidário e forte, que corresponda à gravidade dos crimes de responsabilidade imputados pela oposição ao presidente. A OAB não entrará nessa. Não há outra entidade com peso político para liderar esse movimento.
De resto, os clamores por impeachment de partidos menores, como o Cidadania, são insuficientes para acender Lira. Sem gente nas ruas, o presidente da Câmara nem precisa perder tempo com esse tipo de incômodo.
Essas informações, assim como a interpretação delas, decorrem de conversas reservadas há pouco com algumas das principais lideranças políticas e jurídicas de Brasília. Em privado, elas reforçam o que é politicamente previsível: agirão na próxima semana para se fortalecer e defender o estado democrático de direito. Mas deitarão falação sabendo que o desfecho será apenas isto: falação.
Brasília aprendeu a conviver com Bolsonaro – mesmo o Bolsonaro do 7 de setembro. Dele, o centrão, em especial o PP, extrai vantagens políticas. Contra ele, a oposição, em especial o PT de Lula, extrai possível força eleitoral para 2022. A (quase) ninguém interessa desperdiçar capital político para tentar expulsá-lo do Planalto. E isso inclui os ministros do Supremo que gostam de tomar cafezinho com Bolsonaro.

