A campanha eleitoral deste ano tem sido um jogo mais bruto do que o normal, com fake news, alguns episódios de violência, uso da máquina pública como meio de intimidação, discurso golpista e um baixo nível que causa vergonha em determinados momentos.
Por isso, faz bem à saúde dar uma parada em tudo isso para se concentrar em admirar um gesto de civilidade – algo raro e que deve ser ainda mais nos próximos anos. Num curto e elegante post, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso declarou seu apoio a Lula no segundo turno.
Ninguém duvidava do voto de FHC em Lula. Ninguém acredita que o ato de FHC possa trazer um caminhão de votos para Lula. Mas todos devem observar o ato de maturidade política que falta no Brasil.
Pode-se dizer que FHC entrou atrasado, que foi elíptico no primeiro turno. Seu post na ocasião dava a entender que votaria em Lula, mas não dizia o nome de Lula. Ele fez isso porque a vice de Simone Tebet, candidata do MDB, era uma senadora do PSDB, partido que FHC fundou.
O partido acabou, Tebet não ia ao segundo turno e, aos 91 anos e fora da política, FHC tem estatura para fazer o que quiser. Mas manteve a elegância e o compromisso com o partido. (Não se deve nem pensar em comparar isso com o gesto do governador de São Paulo, Rodrigo Garcia, que declarou apoio a Bolsonaro sem falar com o partido no qual entrou há um ano. Seria cruel).
O post de FHC desta quarta-feira tem duas fotos dele e de Lula na mesma posição, uma da década de 1970 e outra recente. O texto tem três palavras-chave: história, democracia e inclusão social. Ele e Lula são dois dos poucos políticos em atividade que podem usá-las tranquilamente.
FHC e Lula se conheceram no final dos anos 1970. Lula chegou a panfletar na campanha de FHC para o Senado em 1978. FHC apoiou Lula na criação do PT. Se enfrentaram duas vezes em eleições, seus partidos tiraram sangue um do outro por mais de 20 anos e os dois foram malcriados algumas vezes um com o outro.
Mas sempre negociaram, conversaram como amigos e nunca tripudiaram um do outro. Na vitória de Lula sobre José Serra em 2002, FHC instituiu o procedimento de transição de governo, que se tornou uma norma e melhorou a administração. A falta que faz uma transição de governo será notada caso Lula vença a eleição.
FHC está fora da vida pública e Lula está no que deve ser sua última eleição. Pelo que se vê no cenário político, a educação e a civilidade entre os dois não se repetirá. Fará muita falta.

