A campanha de Jair Bolsonaro encontrou no cercadinho do Alvorada a solução para um de seus principais problemas, as falas do presidente como candidato. As condições daquele meio ambiente em frente à residência oficial têm sido replicadas em diversas localidades e no mundo digital, para evitar problemas.
Na segunda-feira, Bolsonaro falou a podcasts de jovens evangélicos. Fez um discurso conservador, admitiu erros e foi pouco questionado. Nesta terça, participou de uma motociata em Sorocaba (SP), como diversas outras em que já esteve. Tem negado entrevistas a veículos de comunicação.
A solução é esta: manter Bolsonaro em ambientes controlados, diante apenas de eleitores fiéis, onde não haja risco de ser questionado de verdade e onde possa dizer o que quiser. Assim, a equipe evita que Bolsonaro solte frases misóginas ou racistas, ataque as urnas eletrônicas, a Justiça Eleitoral, ministros do Supremo Tribunal Federal ou tenha de explicar casos cabeludos, como as transações imobiliárias da família.
A decisão foi tomada após a entrevista para o Jornal Nacional e o debate na Band. Em ambos, o desempenho de Bolsonaro não foi bom. Na Band, o presidente perdeu o controle e destratou uma jornalista – o que repercutiu mal entre as mulheres, justamente um eleitorado onde ele busca reduzir sua rejeição.
A falha desta estratégia é que, ao não se expor, Bolsonaro só fala para os que já estão com ele. É tudo o que ele não precisa. Em desvantagem, o presidente precisa tomar votos de Lula para tentar levar a disputa ao segundo turno. Só a propaganda eleitoral não fará isso. O reajuste do Auxílio Brasil não fez efeitos até agora. A redução dos preços dos combustíveis não emociona os mais pobres.
Campanhas sempre criam eventos confortáveis para os candidatos fazerem sua propaganda. Mas também faz parte do jogo expor os candidatos a ambientes difíceis, onde serão ouvidos por mais pessoas e terão de se provar.
Bolsonaro não teve isso em 2018, pois ficou boa parte do tempo fora da campanha se recuperando do atentado que sofreu. Este ano está fazendo isso por opção. Só que, em vez de ser um outsider, desta vez é o presidente que precisa defender seu mandato. Nesta situação, falar apenas no cercadinho do Alvorada não é suficiente.

