A reação aparentemente desproporcional do Ministério da Defesa e de generais à fala crítica do ministro Luís Roberto Barroso acerca das Forças Armadas deve-se a um entendimento político que se consolida na cúpula militar, notadamente no Exército.

Uma ala expressiva do Estado Maior, e ela talvez seja hoje majoritária, acredita que, em face da guerra entre Bolsonaro e o Supremo, os ministros da corte não respeitam mais as Forças Armadas. Mesmo aqueles que não simpatizam com o presidente reclamam que ministros como Barroso generalizam indevidamente suas críticas.

Comandantes avaliam que está em curso um ataque concertado – e injusto – às Forças Armadas. Dizem que “faltam com o respeito” à instituição. Asseveram que a cúpula militar permaneceu no exercício regular de suas atribuições desde o começo do governo Bolsonaro. E afirmam ser preciso distinguir entre a instituição e o militares da reserva que embarcaram na política.

Em conversas reservadas, oficiais de alto escalão expressam cada vez mais incômodo com os ministros do Supremo. E dão nomes: Barroso, Edson Fachin, Alexandre de Moraes, Rosa Weber, Luiz Fux e Cármen Lúcia. Em linhas gerais, os militares reproduzem uma mistura do que Bolsonaro diz em privado e articula, em parte, publicamente: o Supremo tem um projeto político de esquerda, que inclui ajudar a eleger Lula, derrubar Bolsonaro e “pintar” de antemão as Forças como golpistas. Defendem ou minimizam os atos do presidente, como a graça a Daniel Silveira.

Eles dizem que esse projeto se tornou nítido com o passar do tempo, conforme os ministros do tribunal verbalizaram temer pelo futuro da democracia e a descascar Bolsonaro. Afirmam que, na mais benigna das hipóteses, a credibilidade das Forças tornou-se dano colateral na guerra entre o presidente e o Supremo. Consideram isso inaceitável – daí, em parte, o tom da nota da Defesa contra Barroso, assinada por um aliado de Bolsonaro, o general Paulo Sérgio Nogueira.

Esse quadro político é agravado pelo fato de que não há mais diálogo entre as partes; cessou a interlocução qualificada entre a cúpula militar e o Supremo. Antes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes, ocasionalmente, cumpriam a função de distensionar as relações entre as duas instituições. Contudo, militares com quem eles tinham bom contato, como o general Fernando Azevedo, perderam espaço.

As conversas colaboravam para que os militares mantivessem respeito e tolerância com o Supremo. Ajudavam a dissociar questões institucionais das refregas constantes entre Bolsonaro e a corte. Não morriam de amores pelo tribunal, mas, ao menos, seguravam o ímpeto de bater publicamente nos ministros. Não adianta insistir: as Forças não vão enxergar em Bolsonaro a ameaça que o Supremo, em sua maioria, enxerga.

No plano das ideias, é um disparate imaginar necessidade de conversas republicanas entre militares de alta patente e ministros da Suprema Corte. Na realidade chã de Brasília, trata-se de uma necessidade em favor do Estado Democrático de Direito.

Um dos generais mais experientes acredita que é possível amainar a crise e manter a relação entre as partes respeitosa, mesmo diante da perspectiva de uma eleição dura. Basta que os dois lados façam algo simples, mas que, em virtude das características das instituições, sempre foi difícil: conversar – e conversar muito.

Certo resta que a ninguém, a não ser Bolsonaro, interessa a briga entre as Forças e o Supremo. O presidente quer a cúpula militar na sua trincheira. Conta com erros estratégicos do Supremo para que isso aconteça.