A pesquisa Datafolha divulgada nesta sexta-feira é favorável ao presidente Jair Bolsonaro, mas não como ele e sua equipe queriam. A subida de dois pontos percentuais leva Bolsonaro a 34%, mas está dentro da margem de erro. Lula está parado em 45%. Bolsonaro cresce, mas devagar. O prognóstico infalível é que, nos próximos dias, o presidente e seus aliados vão desmerecer as pesquisas com todo tipo de fake news e argumentos de quinta série.

Bolsonaro jogou tudo nos últimos dias. Transformou o 7 de Setembro em um comício e reuniu multidões em Brasília, Rio e São Paulo; anunciou que o Auxílio Brasil pode chegar a R$ 800, sem explicar como; permitiu uma manobra para dar mais R$ 5,6 bilhões do orçamento secreto ao Centrão, para incentivar campanhas de aliados.

Parece força, mas é desespero. A pouco mais de 20 dias da eleição, Bolsonaro se mantém em segundo lugar. A projeção de sua equipe era que, a esta altura, ele já estivesse na casa dos 40% ou à frente de Lula. É hora de jogar tudo e mais um pouco. Nenhum presidente eleito ou reeleito esteve em situação tão ruim a esta altura da campanha.

O tom de Bolsonaro mudou após o 7 de Setembro e deve piorar. O presidente se sente fortalecido por ter reunido multidões que aplaudem qualquer coisa que diga – desde referências pornográficas a ameaças ao Supremo Tribunal Federal – em três capitais. Falar em um ambiente controlado, sem contraditório, diante de adoradores, curou Bolsonaro do desempenho no debate da Globo.

Na mesma noite do 7 de Setembro, seus aliados passaram a usar imagens das ruas para desmerecer as pesquisas eleitorais. É um argumento de quinta série, mas eleitores bolsonaristas não se importam. Nos próximos 20 dias, Bolsonaro usará e abusará do tom mais agressivo, em busca de intimidação dos adversários – e de quem considera inimigo, como a Justiça Eleitoral.

Bolsonaro disse a aliados próximos que as ruas mostraram no 7 de Setembro que ele vencerá no primeiro turno; e que, se isso não acontecer, é porque foi roubado. O recado claro é que Bolsonaro vai contestar o resultado da eleição caso não vença. O presidente não precisa de argumentos, apenas de uma narrativa, mesmo que absurda. Diferente dos candidatos normais, Bolsonaro não tem apenas a alternativa da vitória nas urnas: ele pensa na alternativa do golpe.